"- E agora? Continua connosco? - quis saber o dr. Almeida.
Não era fácil destrinçar na calma dos seus olhos se a luz que os iluminava exprimia indolência, cepticismo ou pura serenidade.
- Talvez vá frequentar o liceu...
Com mais confiança nas asas, apetecia-me experimentar os primeiros voos. Merecera a liberdade, iria gozá-la. Quem vencera três anos, venceria os dois que faltavam, sem necessidade de clausuras.
- Temos pena, mas faz bem. O que esperamos é que guarde boas recordações desta casa
- Sem dúvida... Foram dois anos que nunca esquecerei...
Não mentia. Devia-lhes mais do que eles próprios sopunham. A vê-los viver uma vida insegura, apertada economicamente, mas rica de amor, de sensibilidade e de cultura, encontrara a resposta que há muito a alma me pedia. Aprendera ali pela primeira vez que a existência, esvaziada de certos valores, pouco ou nada significava. Não era o Byron mau chefe de família que a D. Adélia inculcava nas lições; era o poeta de Childe Harolde e o herói de Missolonghi que erguia diante de nós. Sem aquela aturada lição de poesia, de música, de sonho e de penúria sobranceira, como poderia eu corresponder ao aceno confidencial que a mão invisível do futuro me fazia?"
Miguel Torga, A Criação do Mundo - O Terceiro Dia, Planeta de Agostini, página 177
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