Recentemente, uma pessoa anónima fez uma deslocação profissional a Angola por alguns dias, e deixou-me um relato escrito dessa experiência.
Deixo eventuais interpretações do texto com os leitores.
A PARTIDAApós o check-in em Lisboa, onde cerca de 200 pessoas esperaram pelo embarque, o qual se iniciou uma hora antes do voo, pacientemente, assisti ao frenesim dos passageiros africanos. Os homens, freneticamente, a gesticular e a falar, dividiam-se entre gerir o amontoado assustador de bagagem de mão, enquanto as mulheres tomavam conta dos filhos que carregavam nas costas ou daqueles que, apesar do barulho digno de um verdadeiro mercado, dormiam nos bancos ou no topo das bagagens.
A CHEGADA…Pelas 5h30m da manha, o A340 da TAP, fazia-se à pista do Aeroporto 4 de Fevereiro de Luanda. Após, aproximadamente, 7h, 15m de voo, divididas entre pequenos passeios nos corredores do avião e tentativas falhadas para adormecer, o sentimento era de desorientação. Algo que, ao olhar pela janela, pensei confirmar-se. Não queria acreditar que aquela hora pudesse estar a vislumbrar uma fila interminável de automóveis que, paralelamente, acompanhava o aeroporto.
Uma hora foi o tempo que tive que esperar para passar o controlo do aeroporto. Neste período lutei discretamente contra os mosquitos que me assombravam com o espectro de transportarem alguma doença, a par de, com frequência, ter que me esgueirar entre a agua que caía do tecto, proveniente da tubagem do ar condicionado que não se fazia sentir.
Quando tentava ordenar as minhas ideias para quando saísse do aeroporto, já que o meu Telemóvel, teimava em não dar sinais de conseguir obter qualquer rede, ouço gritar: “
Atenção à gripi das Aves.”. Uma funcionária do aeroporto, furibunda, solicitava aos elementos que validavam os passaportes dos passageiros, que colocassem pequenas mascaras verdes que cobriam o nariz e a boca. Uma recepção animadora.
Foi curioso observar, aquando a entrega do passaporte por parte dos passageiros, um dos funcionários, baixava a mascara para falar com os mesmos. Voltava a colocar, após chamar: “
Sêguinte!”.
De mãos no ar e num tom de voz pouco amigável, os funcionários do aeroporto, entretinham-se a ordenar e a desordenar as filas, mudando e agarrando os passageiros de umas filas para as outras. Algo que acontecia, aparentemente, de forma aleatória, levando a que os lugares conquistados ao fim de uma longa espera se perdessem. A minha sorte não me deixou ficar mal. Fui o último passageiro apresentar o passaporte. O dia já tinha nascido.
Chegado ao balcão, disponibilizo o meu passaporte, simulando um ar natural perante um olhar perscrutador que me visou. Após uma breve pausa para verificar os documentos, o funcionário do aeroporto, saúda-me com um efusivo Bom dia e Bem vindo!. Respirei de alívio. Tudo parecia estar em conformidade. No entanto, ao esticar a mão para recolher o passaporte, este não me é entregue. Ao perguntar se havia algum problema, fui informado que teria que pagar um “café”. “
É o que acontece aos últimos”, disse.
Fingido não perceber o que se passava, comentei: “Sim, daqui a pouco vou beber um café”.
De forma um pouco, mais rude, o funcionário, reforçou: “
Sênhor ***, vai tê quê pagá um café”. “
Pode ser em Euros!” - Acrescentou.
Mais uma vez, fingindo não perceber o que se estava a passar, disse: “Um dia destes havemos de combinar, não seja por isso.”. Após este meu comentário, de forma exaltada, batendo no balcão, apresentou-me uma serie de papéis, todos iguais, e informou: “
Agora vai tê quê preenchê!”
Simpaticamente, respondi: “Com certeza. Não me empresta uma caneta?”
Cuspindo fogo, retirou-me os papéis, e com um gesto autoritário apontou-me a passagem. Se pensava que as dificuldades no aeroporto tinham terminado, estava enganado.
Ao chegar ao tapete rolante das bagagens, o qual já se encontrava parado, vejo a minha mala cinzenta caída a um canto, aparentemente, “guardada” por um jovem de um metro e oitenta, que usava um colete o qual indiciava pertencer ao staff. Ao dirigir-me para a mala, sou confrontado com a pergunta: “
Sê essa mala é tua, diz-me o que levas nela?”. Respondi – “Nada de especial, toalhas e calções de banho.” – Estava impressionado com a minha rápida capacidade de improviso.
Agarrando na mala, o jovem, um pouco intimidador, informou: “
Sê queres quê a mala pássê no ráio-x, sem próblemas, tens quê pagá um “café.”” - Por momentos pensei que me estavam a confundir com o Nabeiro.
Arrancando-lhe a mala da mão, de forma repreensiva, disse-lhe: “O meu médico por questões de saúde não me deixa beber café?”. Foi claro, que esta resposta o deixou atónito. Este momento, deu-me espaço de manobra para em passo acelerado, chegar à dita zona do raio-x destinada às bagagens.
Enquanto me preparava para tirar o portátil e a bolsa de documentos pessoais, já a minha mala tinha sido agarrada de novo, por mais um elemento, sempre disponíveis, do staff.
Quando previa que a conversa do café iria recomeçar, devo dizer, que este último funcionário, nas barbas dos demais colaboradores da Alfandega, me pediu directamente e desesperadamente dinheiro. Algo que justifico com a proximidade da porta de saída, a qual deveria indiciar o fim de mais uma oportunidade de negócio.
Ao ver que uma figura franzina segurava um dístico com o meu nome, apontei na sua direcção. Este gesto foi o suficiente para causar distracção daquele que me pedia dinheiro e tentava lutar pela minha mala. Tinha conseguido sair do Aeroporto. O motorista tinha chegado a tempo e horas.
Enquanto o Sr. *** carregava as malas, apesar de não o ter solicitado, num segundo olhar pude constatar as suas vestes tipicamente africanas. Uma camisa de cor laranja vivo onde o padrão era preenchido por diversas palmeiras, contrastava com umas calças brancas, cujo seu curto comprimento, evidenciavam uns empoeirados e desgastados sapatos castanhos.
Próximo relato: O Transito