"Portugal e o Futuro"Sabe-se que um regime político está podre (no sentido que vulgarmente se dá, em termos de um conjunto de ideologia, instituições e mecanismos que orientam a condução política de um estado) quando o elemento que está na base de tudo, que são as
pessoas que o compõem, não agem em conformidade com o que delas se espera, ou por apatia, ou por falta de convicção (já para não falar em oposição aberta.)
No auge da II República, enquanto regime político, seria impossível que um dos mais importantes generais portugueses escrevesse um livro criticando as orientações do Governo; e seria impossível que a Censura não o lesse devidamente. Mas foi isso mesmo que aconteceu, faz hoje 35 anos, com a publicação de "Portugal e o Futuro", autoria de António de Spínola, na qual o general manifestava claramente a impossibilidade de vencer uma guerra sem fim à vista e em total isolamento internacional. A ideia que o general aí expõe é muito criativa e engenhosa e prova que o País reflectiu sobre o problema que tinha em mãos, mas já era demasiado tarde. Talvez a ideia fosse exequível em 1961...



Foi dos fenómenos editoriais mais curiosos de sempre em Portugal. Nunca nenhum livro esgotou tão depressa; no entanto, será que as pessoas o leram mesmo? Eu já li, e posso comprovar que o general Spínola não é propriamente um Araújo Pereira de piadola fácil. Desconfio que o general fez de propósito, pois escrevendo num tom pesado e maçudo, aumentavam as hipóteses de a Censura não o ler, como de facto aconteceu.
Mais que a ideia inovadora do livro, o que ficou para a História foi o abalo que provocou e que levou à eclosão do movimento militar dois meses mais tarde.
SavimbiA SARIP estava em S. Martinho de Porto quando recebeu a notícia de que o general Jonas Savimbi tinha falecido em combate, numa emboscada preparada por forças do MPLA, faz agora 7 anos.
Que nos desculpem os nossos leitores que pertençam ou simpatizem com a UNITA; que nos desculpem também os leitores que acharam de extremo mau gosto o MPLA ter exibido para as televisões o cadáver de Savimbi
numa padiola, coberto de moscas. A verdade é que toda a gente sabia que, se o ditador tribal da UNITA desaparecesse, a guerra terminava, e foi isso mesmo que aconteceu. Angola pode ter todos os problemas do mundo, mas pelo menos a guerra acabou. E foram 40 anos dela.
Nesse dia, bebemos um copo por Angola, lá em S. Martinho.