Estive ontem, 4ª feira, presente no Teatro José Lúcio da Silva, em Leiria, para o visionamento de um ciclo de curtas-metragens, a sugestão e convite do nosso amigo W.
Há muito tempo que não me dispunha a um programa alternativo, daqueles capazes de mudar toda a nossa perspectiva, muitas vezes a 360º. Havia bastantes programas desses em Coimbra, onde existia também uma vasta comunidade de público bastante receptivo. Eu, parafraseando o W. que se queixa do mesmo, sou um burgesso, um pequeno-burguês com grandes dificuldades em sair dos cânones normalizados e em absorver e disfrutar plenamente a estética ou a mensagem que este tipo de conteúdo artístico pode transmitir, especialmente nos casos mais conceptuais ou experimentais. Contudo, estou sempre receptivo a este tipo de iniciativas – geralmente conseguem sempre surpreender-me. E desta vez não foi excepção, pelo que dei o meu serão por muito bem entregue.
Foram expostos cerca de 8 a 9 filmes, dos quais consegui captar plenamente a mensagem de 3 deles. Mas vamos à ordem cronológica.
Os dois primeiros filmes são inteiramente filmados em Leiria, o que só por si empresta um élan muito próprio à experiência cinematográfica; em lugar das habituais imagens de Los Angeles, Chicago ou New York, é a antiga e medieval urbe leiriense que serve de pano de fundo a uma acção dirigida a um público todo ele “da casa”. O paroxismo é atingido, talvez, na cena final do primeiro filme, passada na esplanada exterior ao próprio Teatro José Lúcio da Silva, o que implica uma sensação de quase nos vermos a nós próprios. O realizador poderia ter ido um pouco mais longe e encerrado a fita na própria sala onde estávamos, o que tornaria esta sensação de introspecção, de “olhar para dentro”, absoluta. E, melhor que isso, seria termos o filme não gravado, mas transmitido em directo a partir da própria sala, onde os espectadores se poderiam ver a si próprios a ver a tela, onde se vêm a si próprios a ver a tela, onde se vêm a si próprios a ver a tela, onde se vêm a si próprios…
Estás a ver, W., como este tipo de experiências culturais tem sempre efeitos imprevistos? A sério, temos de ir a mais cenas destas. Entretanto, talvez eu me possa vir a tornar um realizador alternativo, também.
Como eu estava a dizer, o primeiro filme anda à volta de um casal de adolescentes que escolhe alguns dos edifícios mais degradados do Centro Histórico de Leiria para snifar. A última cena, (na esplanada do Teatro como já referi) mostra-os a comer um gelado até que um desconhecido os aborda, “posso sentar-me aqui?”, e senta-se com eles, sem esperar resposta, e fica a olhar para eles.
O segundo filme é um sonho filmado e realizado por alguns adolescentes, tendo como pano de eleição a Igreja de Nossa Senhora da Pena, no interior do Castelo de Leiria. Um deles tinha um buço verdadeiramente notável.
O terceiro filme foi um dos três filmes dos quais consegui retirar algo. Paulo César Fajardo apresenta-nos, em filme a preto e branco, um velho, um homem rural, que se levanta da cama e percorre a estrada na sua bicicleta, até ao parque da cidade, e depois até ao mar. Os planos demorados, o detalhe das rugas e dos efeitos que os anos trazem sobre um corpo que esconde uma mente viva e jovem (lê-se isso nos olhos daquele respeitável ancião), o contraste entre a juventude inocente e pueril das crianças que brincam no parque e a serenidade da idade, a praia e o olhar longínquo perdido no horizonte – tudo isto são evocações de Bergman e do existencialismo inquieto do século XX. Volto a insistir, Analfabeto, que nunca vi um filme de Bergman completo e que a melhor referência que tenho de Bergman é a do cavaleiro que joga xadrez com a Morte na praia, cena recentemente parodiada por Manuel João Vieira na mini-série “Um Mundo Catita.”
O protagonista é o avô de Paulo César Fajardo.
O quarto filme, de que me esquece agora o nome, foi um dos mais experimentais e conceptualistas e consistiu na evolução de “almofadinhas” de diversas formas, tamanhos e feitios, que interagiam de maneiras diversas umas com as outras, ao som de um piano extremamente agressivo e inquietante. Pareceu-me, claramente, a materialização de uma realidade onírica originada pelo realizador num sonho daqueles em que o cérebro está no registo de onda a que o vulgo chama “sono leve” ou “primeiro sono.”
O quinto filme, “Self portrait”, durou cerca de 10 segundos e consistiu num auto-retrato, de que recordo uma língua vermelha numa face branca. Talvez uma evocação da Polónia?
O sexto filme foi o menos conceptual. Consistiu numa descrição profunda e sentida das condições de exclusão social, abandono, carência, desespero e total ausência de esperança, em que vivem os habitantes dos mais degradados bairros do Porto. Uma chamada de consciência social, pura e dura. Infelizmente, a meio do filme, um dos protagonistas lamentou o facto de, para receber o Rendimento Social de Inserção, os elementos dos Correios terem por vezes a polícia por perto. Como já ouvi pessoas que estão do outro lado da barricada, lembrei-me que a realidade nunca é a preto e branco e o meu nível de sensibilidade ao filme decresceu.
O sétimo filme não foi um filme; foi um plano cor-de-rosa que durou cerca de 3 segundos, e que alguns tomaram por um filme completo e ensaiaram uns aplausos.
O verdadeiro sétimo filme foi em desenhos animados, mais uma vez em registo onírico – uma sucessão de imagens aparentemente desconexas, mas onde o sangue, a violência e o sofrimento, bem como um inquietante plano de um autocarro com figuras espectrais como passageiros, são os “flashes” de destaque.
O último filme foi o meu preferido (embora tenha gostado bastante do “Bergman” de PC Fajardo.) “Arquitectura urbana em pormenor” relevou pormenores urbanísticos de uma cidade, sempre de baixo para cima, sempre em ângulos que não estamos habituados a ver, com uma narradora de voz acelerada e convidado ao pensamento, à descontrução da forma como vemos a cidade, passa o semáforo de vermelho a verde, arrancam os carros, todos vão a todo o lado, ninguém vai a lado nenhum, passam acelerados pelos jardins e pelas praças, e esquecem-se de ver a cidade, de viver a cidade. Percebi rapidamente que a maior parte do público estava mesmo à nora, mas para mim, que já fiz uma rubrica sobre pormenores arquitectónicos e urbanísticos de Leiria neste blogue, e que tenho muitas horas a pé pelo centro de Leiria, grande parte dos pormenores expostos eram-me perfeitamente familiares. Portanto, a mensagem da narradora – olhar a cidade pelas suas formas geométricas, pelas linhas, pelas formas, pelo significado estético e mental que tudo isso carrega, e porque a cidade é vista de forma diferente por cada um que a vê – acho que nunca tinha visto um filme em que sentisse tanto que eu era o único espectador possível.
Quando saí do cinema, depois de uma tal sobrecarga de estímulos tão diferentes, sentia a cabeça leve e fresca como há muito tempo não me sentia.
Talvez também por causa do chuvisco, do “borraço” acompanhado de nevoeiro, que se fazia sentir. W., vai estando atento à próxima!
(e tudo isto à borliu.)
3 comentários:
O das almofadas sobre a GNR era o Orange Play! E o último foi aquele que não tinha som, não era o do "skyline" de Leiria. E não falaste da curta sobre o skate...
Eu sou um bocado avesso a "over-stimulating".... já não correu muito mal...
changan250
lingmu300
changhe100
dazhong3000
passt130
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