Do lado direito da foto, a única convidada deste casamento que envergava o típico traje da mulher nazarena.O casamento começou com poucos minutos de atraso em relação à hora marcada.
Ocupámos, portanto, um banco do lado direito, juntamente com uma senhora com quem, pouco depois, o Daniel meteu conversa, inquirindo qual a sua eventual relação com o noivo.
Eis senão quando a senhora o informa de que não é convidada ao casamento, e que estava ali apenas para ver a cerimónia! "Gosto muito de ver a noiva".
Não se trata de um caso isolado. No livro "A Lua Não Está À Venda", de Alice Vieira, existe uma personagem - uma porteira - que gosta de, aos sábados, ir à igreja para ver a noiva. É uma cerimónia, há uma emoção, lágrima no olho - enfim, algo de perfeitamente incompreensível para a cultura e a civilização que temos agora, mas que fez e ainda faz parte da cultura tradicional e religiosa portuguesa. O Danish apontou-nos que, na religião islâmica, assistir a uma cerimónia de casamento favorece o crente, nem que seja porque se trata de assistir a um dos actos centrais sobre o qual se baseia a sociedade e a fé e, portanto, é algo que interessa a todos e pode estar aberto a todos. Naturalmente, tal está muito próximo desta nossa tradição.
Mais engraçado ainda foi quando o Daniel perguntou à senhora, natural da terra, quem tinha fundado a Igreja (depois de termos visto, numa parede, a placa "1704", o que condizia bem com a arquitectura, típica desse tempo no qual se construíram muitas das igrejas das aldeias portuguesas, e com a talha dourada.
Reza a lenda que a igreja foi mandada construir por um rei que estava em guerra com Espanha e que esteve refugiado em Minde, tendo fugido de comboio à aproximação dos espanhóis. Mais tarde, mandou construir a igreja em sinal de agradecimento ao povo que o acolheu.
O dr. José Hermano Saraiva costuma contar estas lendas populares, não pela sua veracidade ou verosimilhança, mas porque são muito úteis para compreendermos os pensamentos profundos do povo, aquilo que a lenda representa. Não sei se o Dr. Saraiva conhece esta lenda da igreja de Minde nem o que pensaria de tal; eu arrisco que este povo serrano, levando uma vida dura, de trabalho difícil e de isolamento, longe de senhores feudais e de contendas, talvez quisesse ter para si uma história ligada a grandes acontecimentos. Bem, mas eu não vou estar a inventar, até porque Minde tem uma história muito específica, tem um calão próprio - o minderico - como talvez não haja outro em Portugal e escuso de estar para aqui a inventar.
Em termos históricos, Portugal era um dos países intervenientes na guerra civil espanhola que decorria quando a igreja foi construída, em 1704, mas é improvável que o rei se tenha refugiado ali, até porque a invasão espanhola nessa guerra foi muito breve e limitada, e quanto ao comboio... bem...
A noiva fez algum suspense, com uma entrada pausada, que permitiu aos músicos presentes (sem o tradicional órgão e sem a tradicional Marcha Nupcial, nem a de Mendelsson, nem a de Wagner - que, de resto, tende a ser proibida pela Igreja Católica) a criarem a envolvência adequada.
Os livros da missa eram totalmente bilingues. A segunda leitura foi precisamente proferida em neerlandês:
O padre Albino Carreira fez uma cerimónia inteligente, reduzindo-a ao mínimo essencial - consciente de que os convidados, "que vêm de tão longe", não iriam perceber patavina do que ele estava a dizer, assim como ele mal foi capaz de dizer os nomes dos pais do noivo, como naturalmente reconheceu. Das poucas coisas que disse, é de sublinhar o facto de no casamento "não ser preciso falar muito", ou seja, o amor é que conta. Não podia ser mais adequado.
O cântico do salmo foi efectuado por um jovem adolescente com uma boa voz de soprano que não condizia totalmente com a sua imagem. Esse momento, do qual infelizmente não temos imagens, foi comparado com este - e foi vivamente comentado o resto do dia.
A saída foi como manda a tradição, com muito arroz e repicar de sinos. Infelizmente, o Youtube não aceitou o vídeo que captei deste momento, pelo que vou substituí-lo por esta foto da noiva, secundada por dois anjinhos nitidamente mal preparados para o clima quente e solarengo da Europa meridional.
O carácter prático deste casamento voltou a estar patente na foto "geral", que normalmente se tira à saída, com todos os convidados. Geralmente, é uma cerimónia para demorar 10 minutos, até que todos os convidados estejam a postos, os mais altos se convençam a ir para trás ou a baixarem-se, e os grupos de conversas se convençam a calarem-se por um bocadinho e virarem-se para a frente.
Aqui, não. Em dois minutos estavam tiradas as fotografias. Tive pena de não ver o resultado final, porque havia várias pessoas viradas para trás a conversar e praticamente não houve enquadramento por parte dos fotógrafos para se ver toda a gente. Mas pelo menos não estivemos a torrar ao sol.
(Continua)
2 comentários:
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Em plena lua de mel, estamos ansiosos por ler a reportagem III do nosso casamento, escrita pelo nosso reporter, o grande Ismael. Estamos a adorar os teus comentarios.
Beijo e abraco grande,
Marta e Reinold
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