terça-feira, julho 10, 2007

Resposta a Paulo Gerardo, 2
É habitual considerar a Sociologia como uma ciência, na melhor das hipóteses, falsa e inútil. De acordo com os nossos padrões habituais, é uma autêntica blasfémia considerar que um tema tão poético, intimista e maravilhoso como o amor pode ser analisado ou explicado pela Sociologia.
Por isso, desafio cada um dos leitores a procurar a verdade por si próprio. Desde a separação dos meus pais, ou talvez desde antes disso, que procuro as respostas que o mundo deu a este tema. O senso comum, as filosofias, as religiões, respostas de determinadas culturas e civilizações, do nosso tempo e de tempos anteriores. Como não sou perito, foi tudo por alto. Contudo, não encontrei nenhum “paradigma” de explicação tão completo como o do sociólogo italiano Francesco Alberoni.
Nascido em 1929, Alberoni distinguiu-se no estudo da sociologia dos grupos e movimentos, e do amor em particular. A sua obra “Enamoramento e Amor”, de 1979, foi um sucesso internacional, tendo-se seguido vários outros títulos na mesma linha.

Muito resumidamente, Alberoni defende que os movimentos colectivos (religiões, partidos, etc.,) têm uma fase inicial, o “estado nascente”, no qual subvertem a lógica das regras já instituídas e levam os primeiros aderentes a darem grande parte de si próprios em prol da causa, e a “instituição”, quando o movimento já estabilizou o seu modo de funcionamento e, mais do que revolucionar, pretende manter-se e perpetuar-se no tempo.

A blasfémia está em que Alberoni afirma que é assim que funciona o amor: uma fase inicial de estado nascente, na qual damos o melhor que temos de nós próprios e estamos dispostos a reconstruir a vida que temos em função dessa instituição que está a nascer – o Casal – uma fase na qual andamos nas nuvens, nas asas do fogo, etc., como dizia PG e como os poetas bem descrevem, uma fase que, segundo alguns estudos, não dura mais de 18 meses (até porque está associada a alterações físicas e hormonais que permitem que nos sintamos super-homens e super-mulheres, o que nos dá aquela sensação única e indescritível); e uma segunda fase, na qual o estado nascente evolui para instituição, o Amor propriamente dito, quando já construímos ou ainda estamos a construir uma vida nova, já com o regresso à normalidade, e na qual os tempos iniciais de paixão são evocados como uma memória forte que explica e justifica o presente. A instituição faz cálculos e contas, mas não é menos amor por causa disso – e se for bem sucedida, pode, naturalmente, ser eterna, ao contrário do Amor-Paixão que, seja ou não bem-sucedido em evoluir para Instituição (pois quantas vezes a Paixão morre, ou não é correspondida, ou as pessoas preferem pular de paixão em paixão e cortam qualquer hipótese de passagem para instituição, etc.), mas nunca é eterno.

Este esquema, mesmo descrito desta forma muito simples e incompleta, diz-nos mais sobre o fenómeno do que qualquer coisa que tenhamos ouvido na rua, especialmente num tempo em que o amor é visto com algum descrédito. O lirismo de PG não ajuda a explicar as coisas: pelo contrário, insistindo em que o Amor-Paixão é eterno, PG só complica ainda mais. Não devemos pensar que o Amor-Paixão é eterno; devemos, sim, pensar que um Casal é um movimento colectivo, uma instituição, e que para sobreviver e perpetuar-se no tempo, tem que ser cuidado, necessita dedicação, paciência, e acima de tudo muito apoio nas horas más e quando a outra pessoa precisa da nossa ajuda. (“Na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença.”) Muitas vezes é difícil porque nem sempre estamos alerta. Se pensarmos que o amor é andar nas asas do vento, podemos sofrer uma decepção quando a brisa pára… mas é precisamente o contrário: trata-se de estarmos protegidos para o momento em que o Amor-Paixão começa a morrer, e quando começamos a ver os defeitos da outra pessoa, para os quais estávamos até então cegos pela própria natureza das coisas. Não pensar que o Amor é uma mentira apregoada por aí, mas sim que é assim mesmo que funciona e que não vale menos por isso.

Será esta forma de ver o Amor menos romântica? Apaga o lirismo e a poesia? Não o creio. Também António Damásio foi acusado de retirar sentimento e poesia ao amor quando declarou que tudo não era mais de processos químicos no interior do nosso cérebro, mas foi o próprio a anunciar que conhecer os nossos processos cerebrais não lhes retirava beleza. Pelo contrário: atribui-lhes uma beleza nova.
Esse debate já dura, talvez, desde que alguém disse que as trovoadas eram causadas por descargas eléctricas entre nuvens. Não creio que o Universo se torne menos lindo ou maravilhoso pelo facto de o compreendermos (mais um pouco). Pelo contrário.

Assim é com Alberoni. Estejamos preparados para viver o Amor, e não tenhamos medo – mas façamos as nossas contas.

A noção de que as instituições podem ou não ser eternas não precisaria de um sociólogo para ser compreendida. Velhas instituições perdem o sentido e nascem outras. Isto remete-nos para a questão das liberdades individuais, que constituirá a 3ª e última parte desta resposta.

Em anexo, e para não sobrecarregar este blogue, ficam alguns excertos de “Enamoramento e Amor” de Francesco Alberoni.

2 comentários:

Antonio disse...

Porra deixem o amor em paz....como um livro que escreveram..."o amor e fodido"

Anónimo disse...

nao fui eu que postei anonimo... ó Ismael ja ca tinha colocado o Bocas... epa nao leves a mal mas n pretendia ter acendido uma discussão tao grande entre ti e o paulito moralista!!! Daniel