"Hoje em dia a lei não permite que duas pessoas se casem sem hipótese de desfazerem o casamento. Não é possível, perante a lei, casar para sempre.
É capaz de ser complexo explicar como se chegou a este estado. Mas é bem mais fácil comprovar os efeitos que o divórcio tem tido na nossa sociedade. Nas nossas crianças, nos que cresceram desequilibrados, nas confusões mentais, na perda da segurança. Não é sem enorme prejuízo que se anula a família, a qual, por sua natureza, se fundamenta num laço inquebrável - a única coisa que permite a estabilidade indispensável à constituição de um lar e ao crescimento de novos seres. Um professor espera, mais cedo ou mais tarde, problemas num aluno cujos pais se divorciaram.
Vamos supor que a lei nos autorizava a fazer duas coisas quando estivéssemos para casar. Uma delas seria o contrato que agora existe e pode ser anulado com maior ou menos facilidade. A outra, um pacto inquebrável, que impedisse os que se casam de virem a casar mais tarde com outra pessoa qualquer, a não ser por morte do seu cônjuge.
Vamos, ainda, supor que dois jovens se amavam. Ele pedia-a em casamento e ela, naturalmente, perguntava qual das duas espécies de casamento lhe propunha ele.
Poderia ser uma situação embaraçosa, não acham?
Que responderia o meu leitor à sua bem-amada, se fosse o jovem da minha suposição? Seria capaz de lhe propor o casamento descartável? Isso não seria uma manifestação de que o seu amor não era bem... amor?
Que resposta esperaria a minha leitora, se fosse a jovem em questão? Não teria estado a sonhar com um amor para toda a vida?, com um vestido de noiva cheio de sentido?
Sucede que o amor do casamento é de tal forma que não admite meias-tintas: se existe é para sempre. Se aquilo que se entrega não é tudo, esse amor não tem a qualidade necessária para se tornar no fundamento de uma família. Não pode ser alicerce nem raiz. Não será fecundo. Dará frutos apodrecidos, como, infelizmente, temos verificado tantas vezes.
O amor não admite o cálculo. Não faz contas. O amor é louco.
"É uma loucura amar, a não ser que se ame com loucura", dizia o velho adágio latino. Mas hoje cometemos a loucura, e a tolice, de amar sem loucura... Fazemos as nossas contas e os nossos cálculos. Avançamos as peças do nosso xadrez, mas com o cuidado de prevermos uma escapatória, para o caso de ser preciso bater em retirada.
Medo de que o casamento não corra bem?... O amor e o medo não podem andar juntos. Quem tem medo não entende nada de amor. Amar é, precisamente, não ter medo. É acreditar que se possui uma força imensa. Quem ama sabe que é também possuído e protegido pelo amor. E que, por isso, caminha noutra altura; voa por cima dos gelos, dos salpicos das ondas, das pedras aguçadas. Vai por cima de um mundo muito pequeno, nas asas um fogo, em mãos de fadas. Possui outra dimensão. Parece-lhe que quem não ama é um morto-vivo...
Somos capazes de um amor assim. Somos capazes de jogar a vida inteira no consentimento matrimonial. Somos capazes de incluir todo o nosso ser numa palavra que dizemos. E de tornar de aço essa palavra pelo tempo fora, através de todos as dificuldades"
Paulo Gerardo
4 comentários:
Infelizmente, não tenho tempo para uma resposta mais elaborada a um post que, sendo largamente conhecidas as minhas posições sobre o assunto por parte do autor, parece ser um enorme desafio à minha pessoa. Desde já informo os nossos leitores que este post terá uma resposta à altura, mesmo que se passem largos dias sem que tal aconteça. Para já, deixo apenas o seguinte:
"Isso não seria uma manifestação de que o seu amor não era bem... amor?"
Isto parte de uma suposição muito bela mas que não tem de ser universal. E que tal colocarmos a questão ao contrário? Porque haveria a jovem de acreditar em quem viesse logo propor-lhe um vínculo eterno, o Mundo e a Lua? Não seria mais sério propor primeiro o "descartável" e só mais tarde, depois de o amor superar todas as provas, passar ao definitivo?
Que resposta esperaria a minha leitora, se fosse a jovem em questão? Não teria estado a sonhar com um amor para toda a vida?, com um vestido de noiva cheio de sentido?
"Que resposta esperaria a minha leitora, se fosse a jovem em questão? Não teria estado a sonhar com um amor para toda a vida?, com um vestido de noiva cheio de sentido?"
Ahm... n-não. Para desgosto de Paulo Gerardo, existem já muitas mulheres que não sonham com o vestido noiva cheio de sentido e de folhos - embora continuem a sonhar com uma VIDA cheia de sentido.
"Um professor espera, mais cedo ou mais tarde, problemas num aluno cujos pais se divorciaram."
Esta, então, só merece desprezo...
Um contrato de casamento como existe hoje em dia é um atraso jurídico; faria muito mais sentido um contrato com prazo de caducidade definido (1, 5, 10 anos) e que seria renovável com interesse das partes.
De resto, o texto parece-me bastante utópico, com um quê de reaccionário. O autor devia sair do século (vamos ser simpáticos!) XIX e perceber que o amor é lindo e maravilhoso... enquanto dura! Depois disso, se se persistir em prolongar o que terminou, é apenas um cancro que consome 2 pessoas!
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