Fui ontem ver o 300.
É um bom filme, mas…
É acima de tudo um filme de acção, para entreter. Não é um filme histórico. Tem cenários bíblicos, gajos feios (cada um mais feio que o outro) e a caracterização de algumas personagens é levada a extremos (nomeadamente a de Xerxes, líder persa), e umas pancadas de magia surreal à mistura, como quando vemos a chuva de setas a tapar mesmo o sol como os persas tinham ameaçado.
O Braveheart vinha constantemente à memória. A chuva de setas causou danos entre os escoceses, mas esses eram simples campónios; já os espartanos, perfeitos guerreiros, não tiveram uma única baixa.
Leónidas a gritar “HOLD!” enquanto o exército espartano aguarda a carga persa. Lembra-vos alguma coisa?
Os guerreiros são demasiado perfeitos. Claro que são espartanos, mas mesmo assim são demasiado perfeitos.
Os elefantes persas também são absolutamente incríveis. O que diria Aníbal, general cartaginês que levou o seu exército com elefantes da Hispânia até Roma passando pelos Alpes, se tivesse visto o potencial bélico dos elefantes persas??…
O filme tem igualmente uma separação moral muito nítida e simples entre os bons, firmes nos princípios, nas convicções, nos sentimentos, e capazes de infringir uma lei corrupta para servir uma Lei superior, e os maus, corruptos, devassos, fracos de carácter, traidores. Geralmente, desconfio deste género de histórias a preto e branco – o debate sobre isso ficará para mais tarde.
Uma filme tem ainda umas cenas de sexo e eróticas notáveis, havendo contudo uma distinção subtil entre o sexo legitimado pelo amor, entre o rei e a rainha de Esparta, e a licenciosidade dos oráculos e do harém persa.
Só mesmo mentalidades fanáticas poderiam divisar, neste filme, uma comparação às tensões entre os Estados Unidos e o Irão (onde o filme foi proibido). Durante o filme todo, e apesar dos frequentes apelos à liberdade (Braveheart…), é impossível alguém olhar para Xerxes, efeminado e divino, e recordar-se de Ahmadinejad, simples, barbudo e malcriado. Aliás, na luta entre uma pequena nação e um Império, é mais provável alguém comparar Esparta ao Irão e a Pérsia aos Estados Unidos. De resto, se a República Islâmica entendeu que era conveniente mudar o nome ao país, porque deveria incomodar-se com essa herança histórica?
Pessoalmente, não associo a liberdade a Esparta. A liberdade da Nação, da Cidade, do Estado, do Colectivo, essa sim, concerteza; mas a liberdade do indivíduo, não. (O filme deixou, da parte do rei Leónidas, um insulto reles a Atenas, “cidade de filósofos e amantes de rapazinhos.” Mas isso fica para outra altura.
1 comentário:
Não vi o filme e não está nos meus planos fazê-lo. Mas, segundo sei, o filme é uma adaptação de uma BD (do Frank Miller, o mesmo de SIN CITY), daí a magia surreal, a caracterização extrema e a perfeita distinção entre Bem e Mal.
Quanto à comparação entre Xerxes (aka Rodrigo Santoro depilado) e Ahmadinejad (aka Paulo Portas de barba, bigode e dentes menos brancos), só numa mente carregadinha de teoria da conspiração é que cabe...
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