“Porque só se é homem assumindo tudo o que fale em nós. Chico pensa na utilidade «prática». Mas, se através dos tempos o homem pensasse apenas na utilidade prática, hoje não seria um homem, seria um parafuso. De resto, os utilitários estão lutando contra si: conquistada a base prática, liquidados (…) os problemas de bem-estar, (…) eis que as flores da solidão, da asfixia, brotarão com a sua virulência clandestina da miséria do homem: a vida estará então toda ela por conquistar, desde o limiar das origens.”
Caros leitores e amigos,
Todos nós somos confrontados, em dada altura da nossa vida, com um projecto para o nosso futuro. Podemos segui-lo ou não; podemos lutar por ele, e celebrar a vida nos intervalos dessa luta; podemos recomeçá-lo, ou perseguir novas metas; podemos lutar por várias coisas simultaneamente, na nossa vida pessoal ou profissional; e, pelo caminho, temos sempre vários outros desafios para enfrentar.
Deixando as abstracções, há que reconhecer que todos nós lutámos, acima de tudo, pelo desígnio materialista. Não ficámos ricos; provavelmente nem tivemos de fazer escolhas entre os planos profissional e pessoal, pois talvez não tenham entrado em confronto; e se entraram, talvez tivéssemos conseguido passar por cima de tudo isso. Mas o materialismo comanda-nos – o que é natural, porque é o herdeiro natural dos nossos instintos de sobrevivência.
Chegámos a um ponto em que todas as nossas forças, morais e mentais, eram consumidas por esse desígnio. Bem ou mal, lá íamos conseguindo pensar noutras coisas, aliviar um pouco a mente, mas era difícil fugir àquilo.
Eis que chega o dia em que podemos descansar um pouco, inspirar fundo e aliviar a angústia. Conseguimos qualquer coisa, e não temos de dedicar ao nosso trabalho mais do que o naturalmente necessário. O futuro dá-nos uma pausa.
Podemos voltar a ser crianças por uns dias? Melhor – adolescentes, crianças grandes, sempre de sorriso pronto ao nascer do dia?
Ou o stress tornou-se uma segunda natureza que não nos abandona?
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Toda a gente, creio, teve o romance “Aparição” nos respectivos programas do ensino secundário. Não é por isso que passamos a reflectir sobre “o espantoso milagre de estar vivo e o incrível absurdo da morte.” É mais provável fazermo-lo quando ela nos toca directamente. E não é pelo mediatismo televisivo que lá vamos; tem de ser algo pessoal. Tem de ser uma morte que mate um pouco de nós, uma vida de cujo traço sejamos fiéis depositários até chegar a nossa vez de cairmos no esquecimento (ver, entre tantos outros, o filósofo G. Coelho.)
Não vou dizer que o materialismo é vão e vazio. Neste caso, o materialismo é sobrevivência. Necessária, aliás, tão imperativa como a morte. Contudo, a luta materialista torna-se demasiado exigente; suga os nossos recursos mentais a um ponto que acabamos por esquecer o significado mais profundo do que andamos a fazer. Quando (repito) a luta materialista nos concede um intervalo, eis que nos caem em cima todas essas questões momentaneamente apagadas.
A morte, já se sabe, não significa nada; é apenas uma baliza, um limite. O significado permanece connosco. Mas, absorvidos inteiramente pela sobrevivência, o significado – criado por nós – pode momentaneamente desaparecer.
A vida é uma peça de teatro, diziam os gregos, e ao constatarmos que desempenhar esta ou aquela peça é igual, somos atingidos por uma náusea, dizia Sartre. (Hoje em dia, Sartre teria de recolher-se em casa para fumar os seus pensativos cigarros, dada a força do lobby anti-tabágico.)
Será este intervalo uma ocasião para começar de novo, ensaiar uma nova peça? Ou, simplesmente, recobrar forças para prosseguir com a antiga?
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Como os leitores e amigos já perceberam, não venho provocar ninguém, ou espalhar a Luz; pelo contrário, se alguém de entre vós me puder ajudar a perceber qual é o meu papel na peça que escolhi (porque lá no fundo acho que não quero mudar), estejam à vontade (mesmo aqueles que se encontram, agora, na fase difícil da luta materialista.)
Entre a puberdade e a saída de casa dos pais, a sociedade moderna perdeu as balizas que distinguem o adolescente do adulto. Será “a náusea” um sintoma de que se deixou definitivamente a adolescência?
Nós, utilizadores de Internet, fomos considerados Personalidade de 2006 pela revista Time. Contudo, ainda não avaliámos suficientemente bem o impacto que a net tem nas nossas vidas. Um amigo meu fê-lo, de forma bastante precoce, há uns anos, quando sonhava com um futuro que incluía “a namorada a ver a novela e ele, ao lado, a jogar CM no portátil.” Até que ponto as tecnologias irão influenciar as relações inter-pessoais? Será que aqueles que acusavam a TV de roubar tempo ainda virão a lamentar o ter-se perdido a TV como ponto de encontro da família?
A net é uma ferramenta fantástica e não é ela a culpada das minhas lucubrações; contudo, suponho que os leitores e amigos possam passar bem uns dias sem mim. Há aquelas pessoas que fazem um retiro no Tibete – eu vou fazer um retiro da Internet, aqui no extremo ocidental da Eurásia.
“Seems I have a lot of things to ponder.”