Khady Koïta - entrevista à Visão
"Khady Koïta nasceu no Senegal e, aos 7 anos, foi excisada. No livro Mutilada, agora lançado em português, ela conta ao pormenor como tudo se passou (...) aos 13 anos, foi obrigada a casar-se com um primo 20 anos mais velho que ela e, em pouco tempo, teve cinco filhos. Do marido nada recebia - nem carinho, nem dinheiro, nem protecção." (...)
Visão: Quais os argumentos utilizados pelos defensores da excisão?
Khady Koïta: Apesar de ainda existir muita gente a utilizá-lo, o argumento da religião já não é tão forte. Porque a mutilação genital feminina não está no Corão, não está na Bíblia, não está na Tora. (...)
V: Não se trata, então, de um debate religioso?
KK: Não, este é um debate sobre direitos humanos. E só aí é que conseguiremos fazer alguma coisa. se continuarmos a debater a tradição, a cultura e a religião, não chegaremos a lado nenhum.
V: Continua uma mulher religiosa?
KK: Sou muçulmana praticante. À minha maneira, à minha modesta maneira, tentei fazer a minha religião.
V: Nunca pôs em causa a sua fé?
KK: Não, nunca lutei contra a minha religião. (...)
V: Mas nunca teve dúvidas, mesmo durante os piores momentos?
KK: Não - e felizmente, porque isso ajudou-me. Foi a minha fé que me ajudou a perceber que o bom deus que nos criou nunca poderia querer que fôssemos mutiladas."
A senegalesa acrescenta ainda algumas farpas em relação ao uso de véu em França ("devemos respeitar a pessoa, mas em França, existem pessoas que se tapam porque têm medo de ser agredidas. Não é só a religião, é o poder, o domínio, o controlo da sexualidade.")
Muitos por aí dizem que o Islão moderado não existe. É falso. O que se passa é que é mais difícil de encontrar, porque não fala em nome do Islão, e o que diz é muito mansinho.
E aparentemente, não é incompatível defender os Direitos Humanos e ser muçulmano. Claro que alguns dizem-me que os Direitos Humanos são uma treta, mas isso é o senso comum a falar; se os Direitos Humanos fossem uma treta, não existiria a Declaração Islâmica Universal dos Direitos Humanos, um tema interessante a merecer uma reflexão posterior.
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