quarta-feira, setembro 13, 2006

"DIÁLOGO DE SURDOS"
Há pouco menos de cinco anos, Mário Soares defendeu a tese de que uma forma possível de alcançar a paz seria tentar o diálogo com os grupos terroristas. Na altura, estas afirmações foram ridicularizadas por muitos dos especialistas em Relações Internacionais do nosso país.
Volvidos cinco anos, outro antigo Presidente da República, Jorge Sampaio, defende a mesma teoria, afirmando a necessidade de dialogar com os grupos extremistas.
Dizem os manuais de ciência política (com excepção da corrente realista) que a negociação, a via diplomática e o diálogo devem ser etapas importantes num processo de gestão de conflitos e que a força só deverá ser usada em última instância. Este é o cenário previsível no quadro institucional da ordem mundial vigente com a existência das Nações Unidas.
Mas será este um conflito armado convencional? Será que existe margem para que as partes envolvidas se sentem à mesa das negociações? E quais são essas partes, sabendo nós que alguns países islâmicos não são apologistas dos procedimentos dos extremistas religiosos? Nessa mesa ficarão de um lado os países ocidentais e do outro os países árabes? Não será essa disposição o assumir definitivo de um novo Choque de Civilizações até agora “encapotado”? Será esta uma guerra religiosa, económica ou cultural?
Enfim, muitas perguntas, todas elas com respostas muito variadas dependendo da perspectiva de cada um.
Uma coisa é certa, desde o início desta nova ameaça global que é o terrorismo à escala internacional que a violência tem sido crescente. O jogo do “rato e do gato” tem provocado o aumento de violência e de atentados e não se vislumbra um cessar-fogo definitivo.
Olhando para o país vizinho, verificamos que a coragem de José Luís Zapatero e a sua intenção de negociar com a ETA diminuiu drasticamente a violência dos separatistas Bascos.
Comparando os contornos da acção da ETA com a acção dos grupos extremistas Islâmicos, não podemos analisar o “processo de paz” em Espanha” com a trivialidade de “ se em Espanha correu bem, no Mundo também correrá”.
A Cooperação política e o circuito de informações internacional que hoje existem permitem um combate mais eficaz às acções terroristas. No entanto, passados cinco anos do 11 de Setembro a ameaça global que surgiu em 2001, hoje, é muito maior.
Assim, defender uma plataforma negocial com os grupos terroristas islâmicos será, por princípio, uma boa opção. No entanto, tendo em conta os passos normais de qualquer negociação internacional e tendo em conta os contornos deste conflito que em nada são semelhantes a qualquer conflito armado entre Estados e onde não é clara a materialização das reivindicações das partes envolvidas, poderemos estar a querer promover um autêntico diálogo de surdos o que poderá aumentar as diferenças e perpetuar um Choque de Civilizações que é cada vez mais evidente.

4 comentários:

Daniel Sousa disse...

Bom artigo, apenas um senão da minha parte, não considero o problema do terrorismo como um choque de civilizações. Não existe uma guerra declara de antagonismos enmtre duas ou mais civilizações, mas sim entre grupos extremistas religiosos com uma forte capacidade para a violência e terror. O ocidente não está contra o Oriente, nem o Islão está contra o mundo Ocidental.

Daniel Sousa disse...

A primeira reacção de qualquer pessoa a atentados terroristas e aos respponsaveis por eles é não ter vontade nenhuma em negociar com essas partes, se por um lado não se pode negociar com quem não quer negociar, por outro como se pode ter vontade de negociar com quem mata inocentes desmesuradamente apenas por motivos vazios de religião?!
Podemos estar a cair no erro, de ao tentarmos eliminar estes grupos, apenas fazer emergir mais grupos que podem ser mais violentos, o efeito dominó é frequente nestas situações.
è uma materias muito complexa para lidar, convinha os EUA, que são os responsaveis directos pelo surgimento deste grupos, deixarem-se de "caças às bruxas e ao petroleo" e passaram a extreminar o terrorismo seriamente sem fachadas.

berto disse...

Concordo ctg.
No entanto parece-me que cada vez é mais evidente esse choque de civilizações e um mundo cada vez mais bipartido entre ocidente e Islão. Apesar de sabermos que a maioria do ocidente nada tem contar o islão e vice-versa.
A questão é, se queremos avançar para uma negociação temos de perceber o que origina este conflito e, apesar de tudo o que se diz e do que se faz transparecer, este conflito tem muitos mais contornos económicos do que culturais ou religiosos.

Rui Gamboa disse...

O diálogo é, sem dúvida, a primeira solução, a própria corrente realista e neo-realista, reconhecem-o, desde Morgenthau a Waltz, no entanto, quando esgotado o diálogo tem que haver outras soluções.

A UN não tem o poder necessário à resolução de um conflito como este. O seu Conselho de Segurança continua a ter como base os vencedores da WW II. A Comissão dos Direitos do Homem da UN é composta por países como a China, Angola, Brasil, etc, é pensar num país onde se sabe que os drts do homem sejam violados, que está lá.

Enquanto os países do médio oriente, produtores de petróleo, não criarem economias reais, serão sempre vitímas do capitalismo americano, daí a relação entre os líderes árabes e os americanos, resultando dái a pobreza e falta de emprego de milhares de jovens muçulmanos que depois são recrutados pelos grupos terroristas.

Enquanto não houver uma separação entre poder temporal e espiritual nos países muçulmanos e os direitos da mulher naquelas sociedades não forem respeitados, surgirão sempre interpretações violentas do corão que levarão ao confronto e às consequentes medidas de segurança por parte do ocidente.

Há extremismo no poder norte-americano actual, mas averdade é que a democracia funciona, o modelo checks and balances fez, por exemplo, com que o supremo tribunal (com juízes nomeados por Bush) mandasse fechar Guantanamo.