Ainda sobre o papa
"”O Islão é violento”. Esse pensamento, que nos nossos dias parece óbvio, na verdade não é mais do que uma tese muito em voga por estes dias no Ocidente, que passa pelas universidades e faz o seu caminho até aos jornais e revistas, defendida por muitos historiadores, pensadores ou meros comentadores. Para todos eles, há violência intrínseca nos textos sagrados muçulmanos, há apelos à violência, e todo o edifício teológico islâmico é uma apologia de uma forma de viver que inclui o uso da violência contra aqueles que não acreditam em Alá. Aparentemente, a realidade do presente dá-lhes razão. Em quase todos os países islâmicos há movimentos políticos que professam ideologias violentas, e muitos deles usam a violência como método de acção política. O ”terrorismo islâmico”, que fustiga muitos países, sejam eles islâmicos ou não, é a manifestação presente dessa violência, e como tem assumido gravidade extrema, assusta terrivelmente. Até porque é apresentado como sendo feito em nome do Islão, e da Guerra Santa. Assim, confrontados com esse terrorismo, que usa o Islão como argumento de assalto e ataque ao Ocidente, a tese dos historiadores e pensadores explica-se a si própria, e obviamente valida-se a ela própria com facilidade. Contudo, é uma tese perigosa e provavelmente precipitada. É uma espécie de ”choque traumático”, uma conclusão apressada.
Se, por absurdo, um movimento cristão e católico começasse a colocar bombas a torto e a direito, e a desviar aviões contra arranha-céus, fazendo tudo isso em nome de Cristo, será que aceitávamos de imediato a tese de que o cristianismo é violento? Na verdade, é pouco provável que, se usarmos o critério comparativo, cheguemos à conclusão que o islamismo é mais violento que por exemplo o judaísmo ou o cristianismo. Nos textos sagrados das três religiões pode-se encontrar quase de tudo, e muitas interpretações são viáveis. Por outro lado, não foi o facto de na Bíblia, mais precisamente no Novo Testamento, não existir nenhuma apologia concreta da violência, que impediu os povos ou os estados cristãos de a praticarem. O mesmo se passa com o judaísmo: não há apologias, mas há prática permanente dessas violências. Acrescente-se que, por mais impressionados que nós fiquemos com os actos terroristas de que o Ocidente tem sido vítima, numa escala de horrores eles não chegam nem perto de actos de violência praticados no Ocidente, entre países de tradições religiosas importantes. Tomemos como exemplo a 2ª Guerra Mundial. De um lado estavam países cristãos, protestantes e católicos, como a Alemanha e a Itália, e um país taoista, como o Japão; e do outro países protestantes, católicos e em parte ortodoxos, como a Inglaterra, a América e a Rússia. Ora, não foi o facto de serem países com essas tradições religiosas profundas e aparentemente menos dadas à violência que os impediu de se atirarem às gargantas uns dos outros com uma brutalidade que não tem paralelo na história da humanidade. Comparados com os horrores e as atrocidades que se cometeram de parte a parte, os atentados terroristas do presente são bem menos impressionantes. E, nem sequer vale a pena ir remexer na história antiga: aí, qualquer religião praticou e avalizou um catálogo de horrores, e tenho dúvidas que o Islão tenha direito ao primeiro lugar do ‘top’. Por isso, é preciso cuidado com as palavras e com os juízos precipitados. O papa Ratzinger devia saber que, ao falar de fé e violência, e usar um exemplo islâmico, estava a mexer numa ferida. Podia ter usado um exemplo judaico, cristão ortodoxo, protestante, católico, budista, hindu, taoista. Mas não o fez. Não foi um acto inocente, e julgo mesmo que foi perfeitamente consciente. O Papa sabe que uma guerra religiosa é uma maneira excelente de recuperar o cristianismo. O Islão radical está a dar-lhe uma oportunidade. As desculpas são apenas poeira para os olhos. É preciso reunir os rebanhos quando os lobos andam por perto, e o pastor sabe disso… "
6 comentários:
acho que o homem foi mais inocente que conspirador... na realidade nao percebo qual o cisma dos muculmanos, no corão fala bem de guerra santa contra os infieis... aliás esse é o argumento da guerra da al-qaeda... o Islão tem uma grande conotação violenta nas suas escrituras, tal como de desigualdade entre homens e mulheres... os cataolicos não tanto, mas tambem nao estao isentos de culpas nas denominadas guerras santas... acusar o budismo de viuolente, isso sim seria um ultraje... sejamos mais pragmaticos e menos demagogos!!!
Antes havia o comunismo...hoje em dia ha o terrorismo islamico...desculpas para continuar a sua ingerencia em assuntos que nao dizem respeito aos paises ditos desenvolvidos...nao foram os muculmanos que fizeram as cruzadas,julgo que se o corao fala de guerra santa os textos catolicos tambem nao o ficam atras...temos que perceber de uma vez por todas que isto nao tem a ver com religiao,mas sim com ganancia,e poder...
Concordo genericamente, tirando dois ou três pontos:
"Por outro lado, não foi o facto de na Bíblia, mais precisamente no Novo Testamento, não existir nenhuma apologia concreta da violência"
Resta saber se interpretamos a Bíblia de forma literal ou em sentido figurado... mas existem apologias da violência no Antigo e no Novo Testamento.
No que toca à religiosidade dos países que fizeram a segunda guerra mundial, eu concordaria com o António quando diz que o problema não é a religião, mas também te digo que, por oposição à religião, nunca se iniciou uma guerra invocando um princípio de Ciência.
O Papa não foi nada inocente. Ainda há poucos meses tivemos a crise dos cartoons, lançada por ateus, e Sua Santidade limitou-se a ir atrás, sendo agora uma vítima inocente da fúria dos "selvagens."
"e, por absurdo, um movimento cristão e católico começasse a colocar bombas a torto e a direito, e a desviar aviões contra arranha-céus, fazendo tudo isso em nome de Cristo, será que aceitávamos de imediato a tese de que o cristianismo é violento?"
Não tenhas dúvidas! Estaria errado e a exagerar os termos, mas...
Existem vários países de cultura e religião islâmicas onde não ouvimos falar de radicalismo e extremismos, e existem também várias sondagens internacionais que dão voz aos milhões de pessoas que rezam viradas para Meca e que discordam do terrorismo, mas não aparecem nas televisões.
O grande problema é o conceito "laicização" nunca ter feito parte do vocabulário do Islão
Não podia! É uma "invenção" ocidental... e mesmo os muçulmanos moderados referem a Turquia e Marrocos como países "ocidentais."
(Estes debates seriam muito mais construtivos se pensássemos globalmente. Isto é, se - no mínimo - imaginássemos aplicar estas questões a outras civilizações, na definição de Huntington. Temos ou não sociedades laicas na Índia, na China, no Sueste Asiático, na África sub-sariana? Temos ou não "invasão do ocidente" em todos esses quadrantes? Ficamos com a sensação que no mundo só existem as três religiões do Livro, como se a Índia e a China não fossem os países mais populosos...)
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