sábado, agosto 19, 2006

"Não querer ver", por João Cardoso Rosas (texto completo aqui)

No último ”Expresso”, Daniel Oliveira escrevia: “Quando o mundo começava a olhar com o mínimo de humanidade para os árabes, graças à estúpida ofensiva israelita no Líbano, aparecem as bombas no aeroporto de Heathrow.” Tal como esta frase, todo o seu texto sugere que os atentados evitados em Londres poderiam ser uma manobra dilatória do Ocidente para justificar a ofensiva israelita no Líbano, ou a política americana no Médio-Oriente. (...)Mas se alguns, à esquerda, preferem não ver a actual ameaça terrorista ao mundo livre, outros há, à direita, que pretendem generalizar essa ameaça para além do razoável. Recentemente, ouvi Rafael Bardagí, considerado o braço direito de José Maria Aznar, dizer publicamente que não há islâmicos maus e islâmicos bons. Para ele, todos os islâmicos são igualmente maus.
(...) Poder-se-á pensar que opiniões como as de Oliveira ou Bardagí são tão mal-informadas e dispiciendas que nunca terão curso em sociedades educadas e com uma informação livre. Porém, esta atitude complacente é de uma grande ingenuidade. Aquilo que impede os nossos “cegos” de ver não é a falta de informação ou de exposição crítica. Aquilo que os impede de ver é antes o excesso de ideologia.
Para a esquerda, ainda influenciada por um modo de pensar marxista, o mundo divide-se em exploradores (não apenas o capital, mas também o Ocidente, a América, os judeus) e explorados (não apenas os trabalhadores, mas também o Oriente, os árabes, os palestinianos). Colocando-se do lado dos explorados, estes neomarxistas procuram sempre desculpar tudo o que eles fazem e atribuir as culpas aos exploradores. Exactamente como faziam os marxistas há um século atrás, inclusive quando eram eles próprios a pôr as bombas e a disseminar o terror.
Para a direita, por influência da tese do “choque de civilizações” levada à caricatura e potenciada por uma xenofobia latente, o mundo está hoje dividido entre a civilização ocidental e a civilização islâmica. Esta é vista como um magma sem distinções, um substituto corrente do “inimigo amarelo”, sempre pronto a atacar-nos e a destruir-nos. Curiosamente, os defensores deste choque de civilizações esquecem que a sua perspectiva é coincidente com a da Al-Qaeda.(...)

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