quarta-feira, julho 12, 2006

Fórmula 1

(post só sobre Fórmula 1, quem não quiser pode ir para este que está na moda)

Juan Pablo Montoya - A desilusão da década


O colombiano J.P.Montoya já anunciou a sua saída imediata da McLaren, rumo à NASCAR, nos States.
Recordo o Anuário de F1 de 2001, que perguntava se Montoya seria o novato do ano ou o piloto da década. A resposta está agora dada - na verdade, uma grande desilusão.
Montoya correu durante 5 temporadas e meia. Em 95 GPs, obteve 13 poles, 12 voltas mais rápidas e 7 vitórias. Foi candidato ao título em 2003 (estava a 1 ponto do 1º a 3 corridas do final.) O que correu mal? Porquê a saída?

- Montoya é uma grande desilusão porque era uma forte aposta para Campeão, senão mesmo para sucessor de Schumacher. O colombiano, vencedor do Champ Car e das 500 Milhas de Indianápolis (curiosamente o seu último GP), chegou à Williams em 2001 e à terceira corrida ultrapassou Schumacher de forma impressionante e só não venceu por ter sido abalroado por Verstappen. Ao longo do ano, e embora "só" tenha vencido um GP, deixou o mais experiente Ralf Schumacher na sombra, espalhando magia pelas pistas. E foi tudo isto que deixou a sua cotação muito alta.
Em 2002, voltou a ser o piloto mais forte da Williams, terminando em 3º no campeonato atrás dos Ferrari, tão bem cotado como Raikkonen.
E em 2003, com a descida de forma da Ferrari, cotou-se como candidato ao título, embora tenha fraquejado na parte final e decisiva. Mas ninguém duvidava que seria um top driver ao longo de toda a década.

A partir daí, raras vezes Montoya esteve ao seu nível. Em 2004 sofreu uma desmotivação tripla: primeiro, a renovada superioridade da Ferrari (retrocesso a 2002); depois, o afastamento por doença de Ralf, deixando o segundo Williams sem adversário à sua altura (a troca de Ralf por Gené foi um exemplo clássico de que, diga-se o que se disser, o piloto conta muito.); e por último, o contrato com a McLaren para 2005, que o deixou sem estímulo. As corridas finais de Montoya pela Williams foram mesmo más - com excepção daquela em que teve hipóteses de vencer, e que aproveitou (Brasil.)
Para 2005, era anunciado (e eu concordava...) que Montoya e Raikkonen era a dupla mais forte da F1 desde Prost-Senna.
Mas as coisas não correram como em 1988. Montoya adaptou-se mal ao carro; esteve duas corridas de fora por lesão a jogar ténis (diz-se que foi acidente de scooter); e, no regresso, demorou ainda mais a adaptar-se. Só na parte final de 2005 mostrou algum andamento face ao finlandês, o que se traduziu em 3 vitórias, mas ficou a sensação de uma temporada perdida. Com 2004, já eram duas seguidas.
E este ano voltámos a ter Montoya vários furos abaixo de Raikkonen, e (tal como em 2004) desmotivado pela perda de performance da equipa em relação ao ano anterior. A meio da temporada, quando as negociações para 2007 estão numa embrulhada confusa e inédita devido ao anúncio antecipado da ida de Alonso para a McLaren (e com a indecisão de Schumacher), Montoya rapidamente percebeu que não teria uma hipótese competitiva para 2007 (já se falava na Red Bull) e, bem ao seu estilo, bateu com a porta. (As duas borradas de Canadá e Estados Unidos não terão ajudado.)

- Caso inédito na Fórmula 1: nunca um piloto tão bem cotado - ou, diria, com tanto talento

- se despediu desta forma. Temos pilotos que envelhecem (Alesi, Berger); pilotos que não têm o talento suficiente (Pantano, e outros pagantes); ou simplesmente a oportunidade não surgiu (são às carradas, tipo Davidson, Firman, J. Wilson, T. Glock, S. Sarrazin,); pilotos que prolongam carreiras longas por equipas menos competitivas (estou a lembrar-me de J. Herbert que correu 10 anos no pelotão intermédio, mas sem nunca conduzir um carro mesmo mau); pilotos que se fartam (como Hakkinen) ou até pilotos que se retiram demasiado tarde, querendo prolongar o impossível, como fez o Eusébio (casos de Mansell e Hill). Mas nunca um dos chamados top drivers desistiu da F1 por desmotivação, ou pelo menos tão novo - e a meio da season.

É claro que a saída de Montoya se deve em grande parte ao seu demérito, somado ao facto de ter más perspectivas para 2007. Mas outros pilotos passaram por situações idênticas (caso de Piquet na Lotus) e não desistiram. Será que a NASCAR pode ser uma alternativa interessante, em termos de competição à Fórmula 1?
Coloco esta hipótese porque, para além da vontade da equipa de o pôr a andar, é estranha a desmotivação que o piloto mostrou desde que percebeu que não poderia ser campeão. Porque não continuar a lutar?
Talvez isso se deva atribuir apenas à personalidade particular do colombiano. Muito latino, aliás, muito "my hips don't lie" e "whenever, wherever" como a sua compatriota. Talentoso, determinado e bravo em pista, (até demais, dada a quantidade de vezes que bateu em colegas de equipa

) mas com pouca vontade de trabalhar fora dela. Aliás, um estilo que não tem nada a ver com a McLaren, que exige perfeccionistas fanáticos e por isso nunca contratou J. Villeneuve.
Nem sei como Ron Dennis não pensou nisso antes de contratar Montoya. São 26 anos à frente da equipa, a velhice tem destas coisas...

Para isto terá contribuído o efeito-CM que tudo indica estar a apoderar-se da F1. As equipas têm as suas academias e vão passar a preferir apostar em jovens cheios de garra e salários baixos, em vez de conservar os velhos nomes com salários elevados. Fala-se insistentemente nas entradas de Kovalainen (academia Renault) e Hamilton (academia McLaren), e a pressão sobe os mais antigos nomes sobe.
Em suma, se a comparação não for exagerada, um fenómeno tipo Ronaldo - mas o Ronaldo a sério, dos anos 90, do 5-4 ao Real Madrid, que faz grandes coisas mas de carreira curta. Veremos se Montoya tem sucesso na NASCAR - se tiver, nunca será de excluir um regresso em grande...

Veremos também o desempenho de Pedro de la Rosa, a tentar segurar um lugar para 2007.

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