Dedicado a todos os leitores que já me perguntaram - e não entendem - porque gosto tanto de Fórmula 1
Milan Kundera
"O homem (...) só pode concentrar-se no segundo presente do seu voo; agarra-se a um fragmento do tempo cortado tanto do passado como do futuro; é arrancado à continuidade do tempo; está fora do tempo; por outras palavras, está num estado de êxtase; nesse estado, nada sabe da sua idade, nada da mulher, nada dos filhos, nada das suas preocupações e, portanto, não tem medo, porque a fonte do medo está no futuro, e quem se liberta do futuro não tem nada a temer.
A velocidade é a forma de êxtase com que a revolução técnica presenteou o homem. Ao contrário do motociclista [piloto], quem corre a pé continua presente no seu corpo (...) sente as suas bolhas, o seu ofegar, o seu peso, a sua idade,mais consciente do que nunca de si próprio e da sua vida. Tudo muda quando o homem delega a faculdade da velocidade numa máquina; a partir de então, o seu próprio corpo sai do jogo e ele entrega-se a uma velocidade que é incorpórea, imaterial, velocidade pura, velocidade em si mesma, velocidade êxtase."
Ayrton Senna
"É muito importante mantermo-nos alerta. Ao mesmo tempo não devemos ter medo, porque se temos medo, não nos podemos entregar. mas é importante saber o que é o medo porque nos mantém mais ligados, mais alerta. Determinará os seus limites em muitas ocasiões. Temos a tendência de ir aos extremos, e é atraente chegarmos a esses extremos. Especialmente com sentimentos e emoções fortes (...) Ao se chegar aos extremos e ao se ser capaz de trazer tudo de volta, consegue-se a performance. É importante ter a sensação de medo porque mantém parte de você numa área em que nos podemos segurar em alguns momentos em que estamos apenas indo, indo...
(como aconteceu no Mónaco em 1988: Na qualificação, andava mais e mais depressa a cada volta. Já tinha feito a pole por uns décimos de segundo e depois por meio segundo, e depois por quase um segundo e depois por mais de um segundo - eu ia e ia. Mais e mais. Houve uma altura em que eu era dois segundos mais rápido que Prost, no outro McLaren. De repente, apercebi-me que estava a passar os limiares da consciência. Mónaco é curto e estreito, e, nesse momento, eu tive a sensação que estava num túnel. Eu ia, e ia, (...) Nesse momento fiquei vulnerável. Eu tinha estendido os meus próprios limites e os do carro, limites que jamais tinha alcançado. Ainda mantinha controle mas não estava seguro, exactamente, do que estava a acontecer; estava apenas a deixar-me ir... Foi uma experiência espantosa, mas voltei devagar para os boxes e disse para mim que não voltaria à pista nesse dia.")
(esta parte é só para os que andam à procura da sabedoria "Se sou uma pessoa mística? Penso ser uma pessoa complexa (...) Não me sento à espera que as coisas aconteçam: estou constantemente à procura de mais, especialmente dentro de mim. Nesta área a busca é infinita. Onde se deve parar? Não sabemos quais as capacidades da nossa mente. De tudo o que lemos, o que podemos aprender só é usada uma fracção da nossa capacidade. Por isso, a pesquisa é fascinante. É uma sensação contínua de que "há mais", há mais. Onde?
Uma vez ouvi que o ideal seria termos duas vidas: uma para aprendermos, e a outra para usarmos toda a experiência que acumulámos na primeira. (...) Não acho que esteja correcto. Seria precisa uma terceira e uma quarta porque nunca chegamos ao fundo das questões...")
Daniel Sousa (ao sair do seu kart, em Leiria)
Epa, um gajo ali não pensa em mais nada. Simplesmente conduz, entrega-se à máquina, e o resto fica cá fora. Quanto é que custa uma máquina destas?
1 comentário:
fantástico!!!!
Enviar um comentário