Porque razão deves confiar no sistema - parte 2
"Na minha perspectiva, raramente os governantes se têm elevado acima da mediania, quer do ponto de vista moral, quer intelectualmente; e são inúmeras as vezes em que se colocam abaixo dela. (...) E creio mesmo ser loucura que todos os esforços políticos se baseiem na ténue esperança de conseguirmos excelentes governantes ou dirigentes competentes. (...)
De facto, podemos distinguir dois tipos fundamentais de governo.
O primeiro inclui todos os regimes que são passíveis de ser destituídos sem derramamento de sangue - através de eleições gerais, por exemplo; neste caso, as instituições sociais fornecem os meios pelos quais os governados podem demitir os seus governantes, sendo as instituições protegidas pelas tradições sociais e colocadas ao abrigo da acção dos dirigentes.
O segundo tipo compreende todos os sistemas políticos que só podem ser depostos por meio de revoluções vitoriosas - isto é, na maioria dos casos essa deposição não ocorre. (...)
Podemos agora descrever como princípio de uma política democrática a proposta de criar, desenvolver e proteger instituições políticas no sentido de evitar a tirania Este princípio não equivale ao estabelecimento de instituições irrepreensíveis e infalíveis, que assegurem a justiça e a virtude das políticas implementadas por um governo democrático - ou seuqer a sua justiça ou virtude comparativamente a um regime governado por um tirano benévolo. (...) O princípio democrático implica, sim, a convicção de que a aceitação de uma política negativa em democracia é preferível (conquanto exista a possibilidade de alterar o governo pacificamente) à submissão a uma teoria, seja ela sábia e benevolente. Nesta perspectiva, a teoria da democracia não se baseia no pressuposto de que o poder pertence à maioria, mas sim de que devemos considerar os diversos métodos para o controlo democrático (designadamente as eleições e o governo representativo) omo fórmulas reconhecidamente operacionais e que permitem combater com relativa eficácia, numa linha de oposição tradicional e generalizada à tirania, esse mesmo regime, estando sempre abertas a melhoramentos e fornecendo inclusive métodos de aperfeiçoamento."
Karl Popper, A Sociedade Aberta e os Seus Inimigos (1945)
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