Terrorismo intelectual
Sem surpresa, os ‘cartoons’ dinamarqueses têm sido discutidos como um mero caso de “liberdade de expressão” versus “respeito pelos símbolos religiosos”. Contudo, contar a história assim é, como se costuma dizer, tirá-la do contexto. E, neste caso, o contexto é tudo. A mim, os desenhos dinamarqueses lembram-me os ‘cartoons’ de propaganda bélica, habituais na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais. Soviéticos, franceses, nazis, fascistas, ingleses, japoneses ou americanos, todos usaram os ‘cartoons’ como arma de propaganda de guerra. O “inimigo”, fosse ele qual fosse, era sempre diabolizado, insultado, satirizado e humilhado. A ideia era enfurecê-lo, mas era também levantar a moral dos povos que os viam, excitando-os e cegando-os. Numa guerra, é isso que é preciso, pois caso contrário é mais difícil matar indivíduos de carne e osso como nós. Os ‘cartoons’ dinamarqueses são elementos de uma guerra: a guerra declarada pelo “radicalismo islâmico” ao Ocidente, e que teve como resposta a “guerra ao terrorismo”, declarada pela América e também por muitos países europeus. Não foi, é bom lembrá-lo, uma guerra desejada pelo Ocidente. Não havia, a não ser na mente de paranóicos e conspiracionistas, nenhuma razão óbvia para ter começado. Mas, a verdade é que começou, com extrema crueldade, no dia 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque. O violento ataque, que humilhou a América e espantou o mundo, produziu os efeitos desejados. A América cegou, e mandou avançar a cavalaria, que partiu à desfilada para o Afeganistão e depois para o Iraque. A espiral da “guerra ao terrorismo” prosseguiu, com dezenas de episódios menores e de explosões maiores. Bali, Istambul, Casablanca, Madrid, Londres, provocaram milhares de mortos, e assustaram o Ocidente com imagens horríveis. A armadilha diabólica em que Osama nos enfiou transformou-se de facto numa guerra. Como todas as guerras, cruel, dura, violenta e capaz de fazer vir à tona o pior dos seres humanos. Lentamente, o sentimento dos ocidentais mudou. No dia 12 de Setembro de 2001, muitos eram ainda os que achavam que a culpa era “dos americanos”. Cinco anos depois, já não é assim. A raiva ocidental contra o Islão já não está contida. Devagar, sem pressa mas também sem pausas, está a estalar o verniz da civilização ocidental. Estamos todos mais duros, mais revoltados, mais cruéis. Exactamente como Osama queria. Os ‘cartoons’ dinamarqueses são mais um episódio dessa guerra. São peças de puro “terrorismo intelectual”, e ninguém devia ficar surpreendido com as reacções que geraram no mundo islâmico. A ideia era exactamente essa: mostrar ao mundo quão básicos, primários e “atrasados” são os povos islâmicos. Vir agora dizer que são actos de pura liberdade de expressão artística é de uma candura e inocência que afligem. E dizer que a liberdade de expressão é um valor absoluto espanta. Então porque é que em todo o Ocidente são proibidos os parditos nazis e a defesa das ideologias nazis?Infelizmente, ao tratarem Maomé da forma que tratam, os cartoons conseguiram algo que Osama nunca conseguira: unir o Islão. É que não há quase nada em comum entre os milhões de islâmicos, a não ser Maomé. Assim, e apesar de serem propaganda bélica, os ‘cartoons’ dinamarqueses são absolutamente estúpidos e levianos. Nenhum deles seria aprovado por um ministério de propaganda de guerra. É preciso ser totalmente estúpido para relacionar Maomé com bombas. É assim como culpar Jesus pela Inquisição. Que se saiba, nunca Maomé promoveu o terrorismo suicida. Infelizmente, o radicalismo islâmico já contaminou o Ocidente. Obrigou-o a reagir, e claro, a agredir. Olho por olho, dente por dente. Ontem Bush, e hoje, que já passaram uns anos e os ódios são mais “aceitáveis” e “compreensíveis”, os artistas. Foi sempre assim nas guerras. Um resvalar para a barbárie, que só pára quando um dos lados se render. Guerra é guerra: eles atacam à bomba, nós respondemos com “guerras preventivas” ou cartoons a insultar Maomé. E Osama a rir...
3 comentários:
Aleluia...sempre esta vivo aqui no blog o senhor danish:)muito bem escrito o post...tens razao a questao nao e tao linear quanto parece...mas temos que dizer que houve um aproveitamento politico da situacao...sou contra a publicacao das imagens mas reconheco a liberdade dos autores em as publicar,sou contra as manifestacoes violentas...e uma questao muito complexa esta...que nunca levara a um consenso
Teve de ser o Bloco de Esquerda a anunciar que os cartoons foram publicados pela extrema-direita. E isto muda um pouco o ponto de vista; trata-de do cenário habitual - os radicais "aliam-se", tacitamente, arrastando os moderados na onda. O aproveitamento político pela Al-Qaeda é evidente,e quem achar pouco importante é aucsado de ser pró-americano...
Fiquei mais iluminado com este post do que com muito do que se tem escrito blogosfera afora... Obrigado Danish
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