O MITO DA OBJECTIVIDADE, parte 1
Não há democracia pura, nem há nada puro, de facto
“O acontecimento é objectivo porque ele realmente se produziu, mas o seu relato é subjectivo porque, ao se manifestar e ser transformado em facto, seja ele histórico, científico ou jornalístico, é reconstruído cognitivamente pela percepção e pelo discurso, ambos de natureza marcadamente subjectiva e incapazes de apreenderem ou exprimirem o objecto tal como ele é ontologicamente. «Os factos da história nunca nos chegam ‘puros’, visto que não existem nem podem existir sob uma forma pura», observou, numa célebre palestra proferida na Universidade de Cambridge, o historiador britânico Edward Carr, sublinhado que os factos «surgem sempre refractados através da mente do historiador.» O que significa que os factos nunca falam por si, o autor do texto é que os faz falar. «Os factos só falam quando o historiador chama a atenção para eles», salientou Carr, «é ele que decide a que factos deve dar voz, por que ordem e em que contexto.» Como é evidente, esta é uma observação também válida para os jornalistas e a forma como eles se relacionam com os factos.”
José Rodrigues dos Santos, A Verdade da Guerra (2005)
Por que apoio Manuel Alegre?
[Rui Zink/Jornal Tinta Fresca, 28.11.2005]
Texto gentilmente cedido pela Andreia Ferreira
Porque apoio Manuel Alegre? Antes de mais, porque é um direito que me assiste. Ninguém é obrigado a partilhar com o vizinho as suas opções de voto, mas em democracia (ou, melhor, em não-ditadura) podemos pensar alto. Eu pelo menos ainda me permito esse luxo - o que já deixei foi o caviar, infelizmente. Mas do direito a pensar em voz alta - esse caviar espiritual - ainda não me consegui desabituar, felizmente. Nem todos concordam comigo. Ultimamente abriu a caça ao opinador, que reconheço ser um pato que se põe a jeito. Houve um tempo em que se chamava nomes era aos que optavam por se fechar em copas, caladinhos e espertos, a ver como paravam as modas, não fosse o diabo tecê-las. Agora já nos criticam quando temos opinião. "Mas, em vez de apoiar X, vossemecê não devia estar em casa, lá na sua torre de marfim, a escrever um livrinho, ó senhor artista?" Esta zombetice tenho-a ouvido eu, nas últimas semanas, desbocada aqui e ali por jornalistas-sensatos. Porque apoio Manuel Alegre? Porque, de entre os candidatos, é o que considero reunir mais qualidades "presidenciáveis", eis porque. Os outros parecem-me igualmente estimáveis, mas menos qualificados para a tarefa. Jerónimo de Sousa seria um desperdício, pela sua combatividade, num cargo que exige paciência. Francisco Louçã idem, aspas - ele próprio sabe que ainda tem muito para dar em lugares mais interventivos. Mário Soares foi um excelente presidente e é uma lenda viva, e Belém assentou-lhe como uma luva, mas o título do filme é "O carteiro toca sempre duas vezes", se calha haver a tradicional coroação no segundo mandato, não três. Enough is enough!, como diz o povo. Aníbal Cavaco Silva, a quem não trato por professor porque somos colegas e durante a campanha ele está a exercer essa douta profissão ainda menos que a de político, é alguém de cuja visão do mundo discordo mas que, citando o meu candidato, não me tira o sono - há aliás muitas profissões em que ele será muito competente, Presidente é que não me parece ser uma delas. Um Presidente tem de ser: ponderado, afável, cortês, paciente, amante da vida, cosmopolita; alguém que saiba estar, como diria a minha amiga Paula Bobone. Sim, também terá de ser firme, uma vez por outra - com sorte, quase nunca. A sua magistratura é, no entanto, acima de tudo um espaço de influência, não de dureza ou violência. Firme e hirto - só se for o primeiro-ministro. O Presidente de todos os portugueses terá de ser outra coisa: ponderado e cordato. Mais do que o Chefe das Forças Armadas (que o é), ele é o nosso Primeiro Diplomata: alguém que deite água na fervura, e não fervura na água. O Presidente tem de ter memória, valores, cultura, gostos burgueses, nonchalância (acabei de inventar a palavra, mas vocês percebem o que digo), sentido do dever, probidade, amor a esta cousa estranha e um je-ne-sais-quoi fora de moda chamada Pátria; capacidade para ser não o Pater Familias que Salazar se imaginou, mas alguém capaz de dar um abraço fraterno tanto à Rainha de Inglaterra como a um arrumador em busca de um simpático ao qual cravar um cigarrinho. Acho que Manuel Alegre possui estas qualidades em quantidade e textura muito apreciáveis. Acredito que será um Presidente civil, decente, civilizado. Não acredito que seja ele a salvar-nos do abismo, do défice, do frio que o mundo anda por estes dias, mas isso, na minha opinião, só o qualifica ainda mais. Farto de salvadores está o inferno cheio.
(este texto não é tão longo como o anterior...)
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