sexta-feira, setembro 23, 2005

Uma Política de Marketing

Vivemos numa sociedade, onde uma imagem conta mais do que mil palavras ou acções, a realidade e a verdade perdem terreno em relação ao marketing, vencer é o mais importante, nem que para isso se recorra à mentira e à dissimulação. Todos os sectores da sociedade são afectados por esta situação, e a política é um dos sectores onde mais esta isto se nota.
Estamos no arranque de mais uma campanha política, desta vez “luta-se” pelos lugares autárquicos do poder. Por todo o país vemos placardes de campanha eleitoral, e para não fugir à regra, a Marinha Grande encontra-se repleta de marketing político. Ao longo de todo o conselho encontram-se imagens dos principais candidatos às próximas eleições. Cartazes do PS, CDU, PSD, CDS-PP e Bloco de Esquerda, “enfeitam” a cidade de imagens e mensagens, por forma a convencer os marinhenses a votarem nos seus candidatos. Nem mesmo na época Natalícia, a nossa cidade se encontra tão repleta de cores.
Contrariando as campanhas eleitorais do resto da Europa, em Portugal ao invés das promessas eleitorais e dos projectos políticos, encontramos os placardes com as imagens de políticos e pequenas frases como: “Honestidade e Competência”; “Uma cidade mais positiva”; “Uma equipa de Confiança”; “A escolha certa”; Um futuro melhor”; etc. Expressões repletas de propaganda e marketing, mas vazias de sentido e significado.
Hoje em dia, uma campanha política baseia-se na autopromoção de individualidades e na busca da vitória por todos os meios possíveis, deixando de lado os projectos, as propostas e as promessas para o bem-estar da população. O eleitor, quando olha para um cartaz de propaganda política, tem a sensação que está a ver um qualquer anúncio de uma marca comercial, optando por votar numa marca e num produto. A essência da “escolha correcta e ponderada”, baseada num conjunto de ideias e projectos para o futuro, é abandonada em detrimento da escolha baseada na imagem e no marketing, muitas vezes, completamente desprovido de qualquer valor ou ideal.
Num estudo realizado na Alemanha em 2004, centrado nas campanhas eleitorais na “Europa dos 15”, concluiu-se que as campanhas eleitorais em Portugal são as que menos informam e esclarecem os eleitores. Em Portugal, os partidos limitam-se a procurar a vitória, através de marketing político, ao invés de fomentarem o debate e a apresentação de ideias e projectos para o futuro do povo português. Este estudo aborda ainda a questão dos gastos económicos, “cada vez se gasta mais dinheiro nas campanhas, não significando para isso que as populações se sintam mais confortáveis em tomar uma opção em consciência”.
A questão dos gastos económicos, é algo que deve ser abordado com alguma perplexidade. Numa conjuntura actual de crise e contenção económica, onde muitos projectos económicos e sociais são colocados de lado por falta de meios financeiros, é curioso como assistimos a uma maior massificação da propaganda política. Panfletos, cartazes, placardes, anúncios publicitários, carros de campanha, comitivas, jantares, são elementos das campanhas com gastos completamente surrealistas. Em última análise, não se compreende como todos os portugueses têm de “apertar o cinto”, perdendo bem-estar económico e regalias antigas, quando os nossos governantes, sejam eles centrais ou regionais, não dão o exemplo, nem sequer demonstram o mínimo de preocupação em busca dos seus objectivos eleitorais.
A política está a perder cada vez mais a sua credibilidade, e estas campanhas baseadas no marketing pessoal só servem para o demonstrar e deteriorar ainda mais esta situação. Caso não haja, uma tentativa séria de alteração desta mentalidade e desta forma de actuar, a política corre o sério risco de colocar em descrédito e possível falência, o já de si débil, sistema democrático português.

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