O Espírito de Coimbra
(…) Ah! Jantámos deliciosissimamente, sob os auspícios do Melchior – que ainda depois, provido e tutelar, nos forneceu o tabaco. E, como antes nós se alongava uma noite de monte, voltámos para as janelas desvidraçadas, na sala imensa, a contemplar o sumptuoso céu de Verão. Filosofámos então com pachorra e facúndia. (…)
- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado?
- Não sei… e aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral?
- Não sei.
Não sabíamos. Eu por causa da espessa crosta de ignorância com que saí do ventre de Coimbra, minha Mãe espiritual. Ele, porque na sua biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe. (…) Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma Vontade. E todos, Úranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de um Ser único (…) Moléculas do mesmo Todo, governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim… (…) Portanto, todos nós, Habitantes dos mundos, às janelas dos nossos casarões, além nos Saturnos, ou aqui na nossa Terrícula, constantemente perfazemos um acto sacrossanto que nos penetra e nos funde – que é sentirmos no Pensamento o núcleo comum das nossas modalidades, e portanto realizarmos um momento, dentro da Consciência, a Unidade do Universo! – Hem, Jacinto?…
O meu amigo rosnou:
- Talvez… Estou a cair com sono.
- Também eu. “Remontámos muito, Excelentíssimo Senhor!…” Como dizia o Pestaninha em Coimbra. Mas nada mais belo, e mais vão, que uma cavaqueira, no alto das serras, a olhar para as estrelas!… (…)
Eça de Queirós, A Cidade e as Serras (1900)
Notícias da Fórmula 1 – Spa-Francorchamps, o Templo da Competição
É para mim um enorme prazer ver um GP disputado no circuito belga. Melhor ainda se for com chuva. Este ano, não choveu durante o GP, limitando-se os “danos” à pista meio molhada durante toda a corrida, devido à humidade extrema, mas foi suficiente para lançar a confusão.
O GP foi tão fértil em motivos de interesse, e tão difícil de acompanhar também, que vou ser o mais sintético possível.
- A McLaren foi claramente dominadora e mostrou que, sem imprevistos como o que roubou o segundo lugar a Montoya perto do fim, a vitória não lhe escaparia. Raikkonen à frente de Montoya (antes do abandono deste) foi um pró-forma pelo campeonato.
- A confusão começou quando Fisichella bateu na curva mais rápida e desafiante de todo o Mundial e todos vieram imediatamente às boxes. A partir daí foi bastante complicado acompanhar as tácticas de todos…
- Foi para mim uma desilusão ver M. Schumacher a ser abalroado pelo Sato. Em Spa espera-se sempre qualquer coisa de Schumacher, e ainda havia muita corrida pela frente… o japonês não foi depois tão directamente ameaçado como o Coulthard, em 98; limitou-se a ouvir um ralhete…
- Ambos os Toyota andaram muito bem, mas para obter bons resultados à chuva não se pode falhar nas tácticas de pneus…
- Tiago Monteiro fez provavelmente a melhor corrida do ano. Não cometeu um único erro ao longo de toda a corrida (o que era fácil, dadas as condições!), não houve erros de táctica, pressionou e passou adversários como Jacques Villeneuve (o Campeão adoptou uma táctica bué de esquisita, tendo sido visto em segundo lugar à frente de Raikkonen como depois a ser passado pelo Karthikeyan, mas ficou num bom 6º lugar) e com o toque entre Pizzonia e Montoya herdou um mais que merecido ponto com o oitavo lugar, deixando o colega bem lá para trás! Fora de patriotismos ou invejosismos, esta foi uma performance capaz de chamar a atenção de várias equipas do Mundial. Viva Portugal.
- O Alonso há-de merecer o campeonato, mas também é preciso dizer que tem a sorte dos cães: não há Satos nem Pizzonias que lhe destruam um bocado do Renault… mais uma vez, quase sem sabermos como, muito discretamente, o espanhol lá chegou aos 8 pontos do segundo lugar…
- Trocas de pneus, tácticas trocadas, ultrapassagens para todos os gostos, toques e acidentes, um circuito muito exigente para a condução e com motivos extras de interesse para o espectador, com a pista molhada a exigir cautelas extra. Nada se compara a Spa-Francorchamps.
- Acabou a época europeia e os GP às 13h, sinal que o Outono se aproxima…
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