O que ninguém quer ver, enquanto se reclama o regresso de Salazar para queimar os incendiários
“Basta conhecer um pouco a realidade rural, aquilo que ela era ainda há 50 anos e aquilo em que hoje está transformada, para se concluir que o fogo é, por assim dizer, o seu inexorável destino. Primeiro, foi a plantação sem critério de enormes extensões de pinheiro e eucalipto. Depois, veio a desertificação dos campos e das povoações do interior, a que se somou nova leva de pinheiros e eucaliptos. De então para cá, perdeu-se por completo a noção de que viver no campo, explorar a terra e lidar com a natureza exigem todo um saber e um conjunto de regras a que durante milénios se obedeceu. Nas cidades, a ignorância sobre tal assunto é completa. Nos campos, não se vê gente ou, pior ainda, há gente de passagem, que não faz ideia daquilo que deve e, sobretudo, do que não deve fazer. Por isso, os fogos eram antigamente acidentais e, hoje em dia, estão a tornar-se uma rotina estival.” (…) Podem-se acumular explicações de circunstância, descobrir interesses organizados e escondidos, denunciar pirómanos (…) Como explicação do que está em jogo, é puro fait-divers.”
Diogo Pires Aurélio, Rotina Estival (Diário Notícias, 14 Agosto 2005)
Nasci numa zona rural onde a maioria da população deixara, poucos anos antes, de viver da terra, limitando-se a cultivá-la como hobbie, e cada vez menos. Faço parte de uma geração de hábitos urbanos que mal sabe distinguir uma enxada de uma gadanha, quanto mais compreender verdadeiramente as implicações da vida agrícola. Em todos os verões da minha infância havia incêndios por todo o país, que a televisão pública mostrava antes de existirem a SIC e a TVI. Tenho perfeita memória dos incêndios que assolaram a Serra dos Candeeiros (sem contudo ameaçarem as localidades) e cujas consequências hoje se vêem com facilidade. Sou potencial herdeiro de parcelas de floresta que não sei bem onde ficam, às quais os donos actuais vão de 5 em 5 anos cortar umas árvores para lenha.
É assim tão difícil acreditar no argumento de D. P. Aurélio? É preciso continuar a culpar os incendiários e a falta de meios dos heróis nacionais? É PRECISO CONTINUAR A ACREDITAR QUE, SE O SALAZAR VOLTASSE, IA ELE LIMPAR AS MATAS, DEITAR ABAIXO OS PINHEIROS E EUCALIPTOS E PLANTAR SOBREIROS E CASTANHEIROS E MANTER LINHAS DE CORTA-FOGO? (para além de prender os incendiários, claro)?
THE WEDDING
Como todos sabemos, o Verão e em especial o “meu lindo Agosto” é um tempo privilegiado para os grandes casamentos. Como vou participar num, partilharei as minhas impressões com os leitores deste blog.
O Emigrante – Já se sabe que o regresso em força dos emigrantes para férias condiciona a marcação da data do casamento. Com irmãos, primos e sobrinhos, algumas famílias podem ver o seu número aumentado para o dobro.
O emigrante traz consigo algumas tensões. Em primeiro lugar, linguísticas. Muitos dos que vêm de férias nasceram ou viveram a maior parte da sua vida no estrangeiro, o que faz das reuniões de família uma cena bilingue. Quem entende as duas línguas, está à vontade; quem só entende o português, pode passar por alguns momentos aborrecidos. É possível, por exemplo, ver o noivo a reclamar com a noiva (nascida no estrangeiro) por estar a falar com a irmã no idioma estrangeiro, estando ele sentado entre ambas e a ver passar navios. Contudo, o grau de utilização da língua é muito variado; há os que falam bom português mas com sotaque; os que falam sem sotaque mas recorrem várias vezes ao idioma estrangeiro; os antigos emigrantes, há muito re-estabelecidos no nosso país, que “re-descobrem” a outra língua; os que não conseguem dizer duas frases em português (péssimo) sem recorrer a uma palavra ou entoação estrangeira, etc. Mais raros são aqueles que estudaram o idioma na escola e percebem boa parte das conversas (desde que não falem muito depressa) e que aproveitam para treinar uma língua esquecida no resto do ano. (É o meu caso.)
O uso da língua estrangeira nestes encontros não é necessariamente uma opção arrogante ou vaidosa, mas apenas um hábito normal – cada um expressa-se conforme lhe é mais fácil. Nota-se, nas pessoas que só usam a outra língua em Agosto, uma satisfação óbvia em poderem falar uma língua que se tornou materna. (E além disso, não é verdade que o Reinold e a irmã falam habitualmente em português um com o outro?)
Além disso, entre os “emigras” há os mais simpáticos, os mais cagões, os mais arrogantes, os mais manientos. A língua não é factor determinante, mas sim o dinheiro.
L’ argent – As clivagens socio-económicas entre os membros da família podem provocar alguns choques. Em alguns casos, a “competição” mede-se através dos grandes jantares de família.
Neste último mês já fui a três jantares de família dignos dos banquetes da aldeia do Astérix. (E faltei a um almoço.) Aperitivos, entradas, dois pratos, fruta, sobremesa, café – é possível estar mais de três horas à mesa. A minha longa adaptação a este cenário foi complicada, mas hoje estou perfeitamente adaptado e consigo comer sem parar, ou, como diz o Gilberto, “até rebentar.” Sem esquecer o vinho – e o meu “treino” académico foi essencial para evitar más figuras neste campo (reservadas a quem tem estatuto compatível com elas, nomeadamente a geração anterior.) É verdade que a família tem dificuldades em fazer algo em conjunto sem ser estar à mesa, mas isso não é importante. Há é que rir, beber e comer!
Porsche – as clivagens sócio-económicas têm algumas vantagens. Já posso dizer que andei num Porsche 911. Não conduzi, claro; e também é verdade que não é um último modelo (tem mais de 10 anos); mas estar sentado em “cima” de um motor de 300 cavalos, e sentir a incrível força de uma 3ª velocidade em desenvolvimento (pena não ter chegado a uma auto-estrada…) é uma experiência inesquecível. Ça va très bien!
La maison – A semana final antes do casamento é, como sempre, de um tal stress para os noivos que me assusta pensar em fazer tudo de uma só vez. Trazer “tralha” de casa dos pais, limpar, instalar luzes, equipamento áudio-visual, receber os 10 operários especializados diferentes (cozinha, canalização, etc.) que vêm retocar os pormenores, etc., etc., etc., sem contar com as burocracias da festa propriamente dita. Todas as ajudas são importantes (mesmo as dos que ficam sem nada para fazer muito rapidamente.)
Graças a isso, acrescentei um veículo automóvel à minha experiência de condução. Já conduzi um Ford Fiesta, um Peugeot 205, o Renault Clio da instrução, etc., e como alguns leitores constataram pessoalmente, o melhor carro que conduzi até hoje foi o Toyota Carina do Batinas, tendo sido também a única vez que transportei um passageiro no porta-bagagens. Agora, tive a oportunidade de conduzir e manobrar uma camioneta de carga Volskwagen de 1989. Não é tão difícil como parece; basta ter alguma atenção aos espelhos (o ângulo de viragem tem de ser maior). De resto, o travão de mão é à esquerda, a marcha-atrás é à frente e a 1ª é para trás, mas o ponto de embraiagem é muito fácil de encontrar, e a partir daí torna-se simples. Embora, claro, eu me tenha sentido como se estivesse a conduzir um tanque.
(continua)
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