Já se sabe que de vez em quando tenho uns sonhos absurdos. O sonho desta noite (ou desta manhã) inspirou-me a postar algumas fotografias do enigmático Almourol, o patrão da zona do Médio Tejo e, naturalmente, o único castelo português construído no meio de um rio. Talvez desperte em alguns leitores a curiosidade de o visitar. Visitei-o uma única vez, em 1995...



Seguidamente, pede-se a quem não tiver especial interesse pela Fórmula 1 que salte o resto deste post. E mesmo quem tiver, precisará de doses de paciência...
Coluna da Fórmula 1 – Ordens de Equipa
Na sequência do que aconteceu ou poderia ter acontecido no último GP, e visto que Alonso e Raikkonen têm muito mais pontos que os colegas de equipa, surge uma questão:
- É possível, para o resto do campeonato 2005, que Renault e McLaren executem ordens de equipa à imagem daquilo que a Ferrari habituou os adeptos e espectadores?
Farei um exercício de análise objectiva e racional ao fenómeno das ordens de equipa antes de dar a minha (subjectiva) opinião.
Antes de começar, importa definir o nosso objecto de análise, como se faz nas Ciências Sociais. (Se eu tivesse feito uma Memória Final de licenciatura, este tema – ordens de equipa na Fórmula 1 – teria sido interessante.) Vamos limitar a análise à Fórmula 1, deixando de fora outras categorias do automobilismo, e dentro da Fórmula 1 apenas às equipas de topo, em condições de lutar pela vitória final no campeonato de pilotos, ao longo de uma temporada. É possível que nas equipas do meio e do fundo do pelotão existam ordens de equipa, mas tal não será considerado por duas razões simples: menor exposição mediática dessas equipas e menor necessidade de impor ordens de equipa quando os objectivos são mais modestos, tais como conquistar pontos ou pódios, e não vitórias.
(Existe um caso de uma equipa do meio do pelotão que impôs ordens de equipa de modo a conquistar uma célebre dobradinha, mas é um caso excepcional. Já lá vamos.)
Em primeiro lugar, um pressuposto simples. Para o espectador, as ordens de equipa são um contra-senso. Cada piloto luta, a cada momento, para obter a melhor classificação possível. Entre equipas diferentes, não há dúvidas. Entre dois pilotos da mesma equipa (e não nos esqueçamos que o colega de equipa é O ponto de referência), o Team Boss pode dar ordens. Porquê? Porque têm os espectadores de ver um resultado falseado? Porquê este atentado à verdade desportiva? Porque as equipas desejam conquistar o prémio maior – o Campeonato de Pilotos – e portanto favorecem um dos pilotos. Tudo bem. Mas, e valerá a pena? Será um piloto tão superior ao colega que mereça que ele, nas poucas ocasiões em que anda à sua frente, o deixe passar? A verdade desportiva da Fórmula 1, à face dos espectadores, não valerá mais que a vitória a qualquer custo?
Julgo que não podemos acusar a Fórmula 1 moderna de ser falsa. A verdade é que desde que há automobilismo que há ordens de equipa, assim como resultados falseados devido a uma série de factores que não a batota. Querem exemplos? Em 1956, Collins liderava o GP Itália quando viu o colega de equipa Fangio abandonar por falha mecânica. Num gesto romântico impensável para a mentalidade de hoje (e proibido pelas regras), Collins entra na box e cede o seu carro a Fangio, para que este possa ganhar a corrida e o campeonato. Foi um gesto bonito, mas a verdade desportiva, tal como a entendemos, foi falseada, não é? Em 1958, Hawthorn liderava o GP França quando encontra um desmotivado Fangio à sua frente, com um Maserati cheio de problemas. Por respeito ao pentacampeão, Hawthorn levanta o pé e não o dobra.* Está isto de acordo com a verdade desportiva? Em 2003, Alonso encontrou o pentacampeão Schumacher à sua frente, na Hungria, e não teve problema nenhum em dobrá-lo…
Em 1979, no GP de Itália, os dois Ferrari lideravam. Gilles Villeneuve era mais rápido que Jody Schekter, mas este, se ganhasse, tornava-se campeão. Assim, num acordo tácito com a equipa, Villeneuve absteve-se de ultrapassar o piloto sul-africano, por respeito. “Eu terei a minha oportunidade…”
* É mais fácil utilizar o termo “dobragem” para indicar “dar uma volta de avanço.” Ultrapassar é ganhar posição na classificação, o que é completamente diferente.
(Continua um dia destes)
Sem comentários:
Enviar um comentário