“Quando Sua Majestade [o Rei D. Luís] chegou a Vila do Conde esperava-o uma pompa singular. Era uma delicadeza da câmara. Estavam na estrada, formados em alas, respeitáveis – 160 bois! (…) Em alas só soldados num aparato militar, (…) Bois, não. Para quê?
Senão, digam-nos: - Para que estavam ali? Em que qualidade? Com que intenção? Como bois, não. O boi está nos campos, ou no prato. Em alas nunca. (…) Representavam, como polícias, para conter em alas uma multidão impaciente? (…) Porque então, assim, evidentemente se abre uma época inesperada nos destinos do boi! Se eles podem policiar, à orla das estradas, à chegada de um cortejo, então – é talvez económico, conveniente e seguro – que substituam a polícia civil – pelo gado bovino. O boi é mais sólido, mais sóbrio, mais duradouro e sério que o polícia. Não seria o boi que levaria a sua tarde vigilante, em atitude namorada, diante da criada da esquina; não seria o boi que entraria no fumacento ruído da taberna, a parceirar com os homens do fado. Não. Mas tinha inconvenientes. Seria o boi respeitado? Ah! É bem certo que se poderia ler nas gazetas aterradas: ‘Ontem um bando de facínoras agarrou o polícia n.º 6, todo preto com malhas, e assou-o no espeto (…)’ – Ou ainda: ‘O Café Central acaba de fazer aquisição do polícia n.º 20, castanho, e tem-no à disposição dos seus fregueses para ceias e almoços. Informam-nos ser da mais tenra a carne deste agente da força pública’.”
Eça de Queirós, As Farpas, 1872
Notícias da Fórmula 1!
Como certamente repararam, há duas semanas o meu opinanço sobre o GP Europa não fez a menor referência a Michael Schumacher. Isso porque eu queria demonstrar o erro em que caem aqueles que dizem que a Fórmula 1 actual não tem interesse. Alguém deu pela falta do piloto alemão? Não acharam que os outros 19 pilotos e carros são mais que suficientes?
Esta semana, visto que Schumacher partiu cá de trás, há que voltar a falar nele, porque voltou a fazer parte da corrida.
Largando em 6º, o que aconteceu aos 5 pilotos que estavam à sua frente?
- Trulli ficou de fora antes da primeira curva. Schumi andou em 5º nas primeiras voltas, atrás de Montoya
- Alondo ficou parado 17s no primeiro reabastecimento. Sem hipóteses de voltar a estorvar o hexa.
- Montoya ficou para trás no primeiro reabastecimento. No segundo período de corrida, Montoya tinha menos peso de gasolina que Schumacher, e o cenário inverteu-se, com o colombiano a pressionar pelo alemão. Mas limitou-se a perder tempo até ao seu 2º refuel, na 30ª volta. A partir daí fica cerca de 20s atrás do Ferrari - quando ambos tinham um refuel para fazer até final.
- Button fez o segundo refuel na 30ª volta.
- Ralf Schumacher, lider da corrida, pára na 32ª.
E ambos ficam na mesma situação. Os Ferrari ficam na frente - e a todos faltava um reabastecimento até final...o resto foi ditado pela lógica. Rubens pára na 44ª e Schumi na 46ª. Ralf pára logo na 47ª, sem hipóteses de comer os 4s que o separavam do irmão. Já teve sorte em sair á frente do Barrichello, que perdeu tempo numa saída de pista...
Conclusão: a Ferrari escolheu a táctica certa - 2 paragens. Se o Ralf tivesse escolhido 2 paragens, talvez tivesse ganho. (Ou talvez não, porque por vezes a equipa não tem alternativas de escolha, quando, por exemplo, o carro se comporta mal com tanque cheio.) Mas pelo menos é mais uma pole position para o "mais novo."
Notas:
- O Ralf costuma andar bem em Montreal e este fim de semana não foi excepção. O Montoya foi completamente papado, do princípio ao fim do Grande Prémio.
- O Montoya podia ter tentado aproximar-se um pouco mais do Button no final, a luta pelo 4º lugar teria sido interessante.
- Mais um motor partido para o Sato, que novamente mostrou garra ao passar um Toyota. Desta vez a manobra correu mal.
- Quem viu o Rubens a "aparecer" nos espelhos do Schumacher na 41ª volta até pensou que aquilo era a sério...nada disso, era só a brincar...
- O Kimi continua a fazer os possíveis com o Mclaren...
- Saúde-se o esforço do Klien da Jaguar, na 66ª volta, ao tentar passar o estreante Glock da Jordan. Mas naquele sítio não é fácil. O Glock não andou nada mal e até acabou à frente do Heidfeld.
- Mas o mais interessante é ter-se confirmado que existem, pelo menos, conversas entre Jacques Villeneuve e Frank Williams...
ÚLTIMA HORA:
- A desqualificação da Williams e da Toyota não altera o espectáculo que tivemos na corrida, nem as considerações do campeonato. Para o Barrichello, ficar em terceiro ou segundo não altera grande coisa. É bom é para a Jordan que põe os seus 2 carros nos pontos (7º e 8º), em especial para o Glock - são raros os pilotos que conseguem pontuar na estreia.
Bem, este espaço vai converter-se numa rubrica semanal…
Os posts da semana
09 de Junho, 13:49. É de tal ordem o descrédito a que chegou a classe política portuguesa, que estão 10 pessoas neste café, duas televisões ligadas no Jornal da TVI a dar a notícia da morte de Sousa Franco, e eu sou o único que lhe dá atenção.
Mas esta não é a hora de pensar nisso. Geralmente diz-se que “quando as pessoas morrem, só se diz bem delas, etc.” e às vezes é verdade. Mas eu não vou mudar a minha opinião em relação ao prof. – expressa no meu post de 11 de Março. Acho que ele foi o único ministro capaz e competente do 1º governo de Guterres; que a sua saída condenou o 2º governo à letargia em que entrou, desde o início, e “empurrá-lo” para Bruxelas era uma forma da liderança do PS afastar a maior ameaça, porque o Prof., se quisesse, daria um bom Secretário-Geral – e um melhor Primeiro-ministro.
Para além da família e dos amigos, é Portugal que perde – e os grandes cidadãos são tão poucos e raros… até sempre Professor
11 de Junho, 15:38. A nova Ponte sobre o Rio Lis (que se chamava Ponte América mas que vai agora ser a Ponte de S. Bonifácio) faz inveja a Coimbra, e a liderança PSD da dra. Damasceno deu uma lição de competência e eficácia à coligação do dr. Encarnação. Em um mês – UM MÊS – está feita uma nova ponte! Dir-me-ão que o Esgoto Lis é mais pequeno que o Mondego; mas um mês para fazer uma ponte copiada da de Sta. Isabel – com o mesmo mastro, só que não inclinado – não deixa de ser notável. Sem a ponte, o acesso ao Estádio seria impossível.
Sobram 2 perguntas:
- porque é que a ponte não foi começada um bocadinho mais cedo?
- Se se faz uma ponte, passeios, calçadas, limpezas, o nó de ligação EN 109/IC2, etc., em um mês – porque é que não se faz, em um mês, o alargamento do IC2 para 4 faixas?
Mas tá nice. Esperemos que a nova Ponte tenha os parafusos todos – e não aconteça um acidente daqueles típicos de Portugal.
Cada vez gosto mais do blogger Ivan. O bloquista convicto não tem nenhum problema em criticar e atacar a linha de acção do seu partido, quando não lhe agrada. Um verdadeiro sinal de independência e respeito por si próprio.
Embora eu não ache que o “lhes” dos cartazes do bloco se dirija aos políticos, em geral; acho que é apenas aos “outros.” Especialmente aos “do Governo.” De resto, a campanha eleitoral das europeias limitou-se a ser, no dizer de Eça de Queirós, uma “ventania de insultos trocados”, - e o bloco sentir-se-ia mal, ficaria até envergonhado, se tentasse ser diferente dos outros e fazer uma campanha séria e decente. Assim, “DÁ-LHE COM FORÇA!”
E os partidos tiveram duas grandes qualidades – a honestidade e a sinceridade! Podia ainda haver quem acreditasse que estas eleições tinham a ver com a representação de Portugal no Parlamento dos Cidadãos Europeus! Mas os partidos disseram, com toda a franqueza, aos eleitores: “Deixemo-nos de tretas! Estas eleições são UMA SONDAGEM! Mainada!” Em vez de ser feita pela Amostra, pela Universidade Católica/RTP ou pela SIC/Visão, é feita pela Comissão Nacional de Eleições – e tem portanto 100% de fiabilidade e 0% de margem de erro.
De resto, é assim em toda a Europa dos 15…(os 10 talvez ainda tenham uma réstia de entusiasmo sobrado do dia 1 de Maio…)
22:30. De vez em quando a Comunicação Social é assolada por notícias trágicas. Lembrando Ronald Reagan e Ray Charles, gostava especialmente de relembrar o deputado Lino de Carvalho e a sua respeitável carreira na Assembleia da República. E especialmente porque se trata do pai do nosso colega Vilar, da FEUC. Vi na SIC que “o filho de Lino de Carvalho fez um discurso emocionado”, o que foi sublinhado pelo próprio Carlos Carvalhas. Naturalmente, o Vilar não foi objecto de interesse mediático, e ainda bem, mas certamente que gostava de o ter visto – ele que é uma figura pública aqui na FEUC. As nossas condolências.
(Devia ter visto a TVI. A TVI talvez não tivesse problemas…)
13 Junho, 15:20. Portugal ficou mal visto internacionalmente.
Dói-me mais que um grupo de suecos me peça ajuda para reservar bilhetes de expresso para Lisboa – e não o possa fazer, porque ninguém atende os telefones da Rodoviária de Leiria; e dói-me mais que o Parque Aquático da Praia da Vieira desconheça a existência de um Campeonato Europeu de Futebol e só abra as portas a 15 de Junho, do que a Selecção ter perdido o primeiro jogo.
17:05. Os suecos voltaram e a Rodoviária de Leiria agora atendeu-me. Eles queriam ir a Lisboa ver o Suécia-Bulgária de amanhã (Alvalade XXI, 19:45) e voltar de expresso para Leiria. Impossível. O último expresso é às 21:15; não há comboios, nem pela linha do Oeste, nem pela do Norte (que fossem a Pombal). Resultado: os senhores vão de carro.
O Paulo Ferreira é só um, e esteve desatento num breve momento. As instituições são compostas por muitas pessoas, e o Euro2004 já era esperado há muito! Isto envergonha-me muito mais que o Paulo Ferreira!
20:12. Parabéns ao bloco. É melhor o Berlusconi não aparecer no Parlamento, arrisca-se a levar com o rolo da massa. (Mas também, ele não é de levar e os outros se ficarem a rir…) Parabéns à abstenção, que continua a somar vitórias. O PJS não teve muitos votos; a abstenção é parecida com o PJS, mas neste caso ainda não chega para abalar o sistema. (O PJS é o Partido de José Saramago – o voto em branco.) E parabéns ao PS, que espera reconquistar o poleiro utilizando a mesma táctica do dr. Durão Barroso; esperar que o governo caia de podre, e que se cumpram as leis da inércia. É a ver quem é o mais inerte!
Por falar nisso, lembro-me agora…o Berto havia apelado à SARIP para discutir as eleições europeias. Permitam-me resumir a campanha e o debate de ideias em algumas frases:
Suas bestas! Inertes! Camafeus! Cambada de imbecis! Ineptos! Trogloditas! Lontras! Vão p’á p. que vos pariu! Dá-lhe porrada com força! É p’ó bujon! Mainada!
Está encerrado o debate.
14 de Junho, 10:05. O Reinold não devia interferir com o pasmo e a verdadeira surpresa em que cairam as pessoas depois do jogo. Há que respeitar o fado. Foi o destino... trágico e lúgubre, a que ninguém escapa!...
- Concordo com o Jonas quanto ao Pessoa...
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