quarta-feira, maio 26, 2004

Bebida e Felicidade
Em resposta ao Gustavo de Pedreanes, mais de um mês depois:
Não acho que exista uma correlação automática entre bebida e felicidade porque o conceito de felicidade é muito vasto e a bebida pode, ou não, caber lá dentro.
A felicidade não é universalmente definível. Cada pessoa tem os seus próprios sonhos, projectos, objectivos, desafios, prazeres. É impossível impôr um modelo de felicidade e realização igual para todos. E assim, entre dois alcoólicos, podemos encontrar um desesperado, por não conseguir deixar o vício - e outro muito feliz, por não querer mais nada da vida.
A felicidade não é um objectivo palpável, que se agarre nas mãos e guarde na prateleira da sala para sermos felizes. Os sábios fundadores dos Estados Unidos da América - no tempo em que os Americanos pensavam, reflectiam, debatiam, e se propunham a transformar o mundo para melhor, e possuiam em si o que de melhor e mais progressista a Civilização Ocidental tinha para oferecer - referiram isso na sua Constituição, estabelecendo como princípios sagrados a vida, a liberdade e a procura da felicidade. Porque a vida e a liberdade conquistam-se, mantêm-se, guardam-se; a felicidade, não. É sempre um ir mais além. (Nada disto não significa que se tenha de ter uma vida super-agitada para se ser feliz.)
A felicidade que se retira de um fino, ou de 10; de um bagaço, ou de 10; de beber de vez em quando, ou de ser alcoólico - é diferente em cada pessoa, e cada pessoa pode hoje sentir-se feliz com isso e amanhã achar que fez mal. (Independentemente de voltar a beber ou não). E agora? Foi feliz enquanto bebia...mas deixou de o ser depois? O que conta mais? O passado ou o presente?
Dou graças a Deus por viver numa sociedade que me permite praticar as duas faces opostas da mesma moeda - a Liberdade e a Responsabilidade. Em Portugal, eu posso retirar do álcool a felicidade que eu entender. Tira-se alguma, de vez em quando. Mas tem os seus limites.
Imagino que o Gustavo se esteja a lembrar de Fernando Pessoa: "gato que brincas na rua...", a possibilidade de se ser feliz sem o saber. O alcoólico é feliz porque vive sem preocupações, alegre, contente, e os outros, a sociedade em geral, não tem nada a ver com isso.
Mas será que o alcoólico não pensa de vez em quando que seria bom, por exemplo, ter amigos, ou ter algum conforto espiritual para além do álcool?

A bebida em quantidades moderadas não é imprescindível para a felicidade.
A bebida em quantidades moderadas dá jeito para a gente se divertir um pouco.
Um monge asceta, retirado do Mundo e em contacto com Deus, não se diverte muito. Um bêbado que se ri sem parar não será feliz. Diversão e felicidade não são a mesma coisa. Podem ou não estar interligadas.
Mas é bom que estejam.

Como já deves ter percebido, Gustavo, se continuar a pensar no assunto vou prolongar este tópico indefinidamente em vez de responder à tua pergunta. Por isso fico por aqui. Daqui a bocado vou ser feliz bebendo umas Topázios no Scala a ver o Porto.
Com os amigos.

Férias!...
Não me posso despedir de um sítio se não o vou abandonar. Só que, visto que durante uns tempos vai ser difícil aceder regularmente à internet, é bom avisar previamente.
Vou-me embora, isso sim, de Coimbra. Ponderei bastante antes de aceitar a proposta de trabalho de Verão que me fizeram, tem alguns custos, mas penso que vale a pena.
Só que ir embora é sempre difícil...
O blog da SARIP vai continuar vivo, nomeadamente agora que os novos co-bloggers se encontram mais activos, e vai continuar a servir para a malta se encontrar. Gostava de, brevemente, voltar a aceder diariamente a este fórum, e penso que isso será possível.
De qualquer forma, há sempre uns exames para fazer e... e depois há umas latadas e... e coisas dessas...
De qualquer forma, espero não demorar muito a regressar à blogosfera, gostava que o Ditador da Semana pudesse continuar...enquanto isso não acontece, divirtam-se todos e vemo-nos por aí.

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